Encontro no deserto

Os evangelhos sinóticos narram que, depois da experiência no batismo, Jesus foi conduzido ao deserto (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). Após quarenta dias naquele lugar, Jesus foi tentado (os quarenta dias, no caso, acenam para os quarenta anos da travessia de Israel no deserto). Há quem veja esse acontecimento das tentações como uma provação da qual Jesus, sendo o Filho de Deus, sai triunfante. Nós, porém, seguindo Juan Antonio Estrada, preferimos ler nesse episódio o processo de assimilação e amadurecimento da experiência que Jesus viveu em seu batismo: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo” (Mc 1,11b).

Todo novo conhecimento de Deus precisa ser assumido pessoalmente, mas o processo é muito complexo. É necessário observar com atenção os efeitos e a interpretação que se faz dessa experiência. Em outras palavras, trata-se de fazer um processo de discernimento para não cair no autoengano. Depois da experiência de Deus, surge uma nova sensibilidade, que precisa ser estruturada no “deserto”. “E logo o Espírito o impeliu para o deserto. E ele esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás; e vivia entre as feras, e os anjos o serviam” (Mc 1,12-13).

É interessante que os evangelistas sublinhem que foi o Espírito quem impeliu Jesus ao deserto. Jesus é inabitado pelo Espírito, mas é tentado porque é parte de uma sociedade e sofre as influências do “dever ser” que essa sociedade lhe impõe. Porém Jesus não teve medo de sua liberdade interior nem das exigências de ser autêntico, por isso ele não se submeteu ao código social e, ou, religioso.

Em nossos dias, abundam ofertas de experiências religiosas, mas nos chama a atenção que os efeitos, muitas vezes, ficam num subjetivismo alienante. E é que todos estamos condicionados por nossa personalidade e o código cultural do qual fazemos parte, assim somos presas fáceis de enganos. O âmbito religioso certamente é uma mediação para encontrar Deus, mas também é um lugar de tentação. Aliás, análogo a certas experiências religiosas, intensifica-se o fenômeno patológico, que busca o bode expiatório sobre o qual descarregar a culpa da desgraça e do pecado.

Aludir às tentações de Jesus se refere, pois, a tratar do encontro de nós com nós mesmos, em vistas do amadurecimento na fé. É indispensável que reconheçamos nossa vulnerabilidade humana e que nos confrontemos com as forças contraditórias presentes no interior de todo ser humano. A tentação faz parte de nossa estrutura humana, pois está atrelada à insegurança pessoal. Todos buscamos a segurança que neutralize a angústia existencial. Mas acontece que, muitas vezes, ao fugir dessa angústia, acabamos nos submetendo ao “dever ser” que a sociedade nos apresenta e deixamos de almejar ser o que Deus nos chama a ser.

Ainda que as tentações respondam às necessidades humanas de satisfazer a fome, ao anseio de ser valorizados e ao desejo de poder, precisamos advertir para a dinâmica diabólica que jaz por trás delas. Essas necessidades, usando-se das carências e desejos humanos, facilmente seduzem ao acúmulo, dominação e triunfalismo, aliás, quando essas tentações se cristalizam, somente causam destruição.

Jesus, como homem verdadeiro, inserido numa cultura concreta, sentiu a tentação e a ambiguidade da vida que ameaçava perverter a experiência de seu batismo. Mas ele venceu as tentações, confrontando-as num profundo discernimento. Assim, Jesus transforma as necessidades e desejos humanos, canalizando-os para um projeto de sentido, o projeto do reinado de Deus. Nós, também deixemo-nos conduzir pelo Espírito Santo ao deserto da vida, para aí apreendermos com Jesus a resistir às tentações e aderir a seu projeto de vida.

Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.