10º Domingo do Tempo Comum

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”
Marcos 3,20-35

Esta segunda parte do terceiro capítulo de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (versículos 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão de sua família (vers. 20-21.31-35). Ele usa o mesmo procedimento nos capítulos 5 (21-43), 6 (7-33), 11 (11-21) e 14 (1-11). A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar como os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam luz um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas e é incompreendido, ou até rejeitado, pelos seus familiares bem como pelas autoridades de Jerusalém.

Não há dúvida de que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, e, portanto, com essa ideia introjetada na visão do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas de seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou possuído por um demônio, ou algo semelhante. Numa cultura na qual “honra” e “vergonha” eram conceitos-chave para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo “segurá-lo” e levá-lo para a casa da família.

O confronto com a família continua nos versículos 31 a 35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está pregando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro, na qual uma multidão está sentada ao redor de Jesus, a atitude de discípulo.

Quando é informado da presença de seus parentes fora, Jesus olha para os que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!”. O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Na verdade, Jesus não está denegrindo sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do discipulado dele. Parentesco não traz qualquer privilégio, o importante é ser discípulo e cumprir a vontade de Deus. Assim, Jesus afirma que, conforme nós nos tornamos discípulos, discípulas, temos a mesma dignidade que sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento.

Embora não seja uma questão de grande importância, talvez umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que, na tradição do Oriente Médio, não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos, mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra “adelfos” (irmão) nos dois sentidos: restrito e amplo (Gênesis 29,12 e 24,48).

Podemos dizer que, na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para essa questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando um documento apócrifo (não canônico) do século IV, chamado Protoevangelho de Tiago, conta-se que Maria casou-se com José, um viúvo idoso que já tinha seis filhos e filhas: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não de Maria. Terceiro, seguindo São Jerônimo, afirma-se que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo Apostólico. Mas a questão da virgindade perpétua de Maria não é tocada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios.

A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segundo a nota do rodapé da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), “Esse pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas as palavras fortes referentes a esse pecado não devem tirar nossa atenção de algo muito mais importante: que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia”, e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.