13º Domingo do Tempo Comum

“Menina, levanta-te!”
Marcos 5,21-43

O Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum faz parte de uma sequência de narrativas de Marcos, iniciada com a passagem da tempestade acalmada (Marcos 4,35-41), depois com a libertação do “Possesso de Gerasa” (5,1-20), encerrando-se com dois episódios: a cura da hemorroíssa e o “reerguimento” da filha de Jairo (5,21-43), estes focados pela liturgia deste domingo.

Nessa sequência, dá-se destaque à importância da fé, ao resgate da dignidade humana, à vitória da vida. A passagem começa com o clássico “Jesus passou, numa barca, para a outra margem”. Ainda na praia, Jairo, chefe da sinagoga, cai aos pés do Senhor e implora socorro para a filhinha, que “estava nas últimas”. Jesus sai do meio da multidão, esta certamente também carregada de súplicas, e se dirige à casa da menina. A narrativa é interrompida, deixando em suspense o desfecho do socorro à jovem.

De súbito, passa-se a descrever o drama da mulher que sofria de hemorragia (vers. 25 a 34). Para a maioria dos exegetas esse excerto parece ser de outra fonte, pois o estilo textual é um pouco diferente do costumeiro em Marcos. Mas é admirável a ligação entre os dois eventos.

Fazia doze anos que a mulher sofria com um sangramento. Isso a tornava “impura”, conforme as leis do tempo. Devido à doença, ela não podia participar dos ofícios religiosos e era impedida de ter relações sexuais, não lhe permitindo, assim, ficar grávida. Ademais, a “impureza” a afastava da vida comunitária, visto que não poderia tocar ninguém nem ser tocada, pois “contaminaria” outra pessoa. Mesmo financeiramente, ela estava arruinada, pois havia gastado em vão suas economias com os médicos.
Como é costumeiro nos Evangelhos, as curas realizadas por Jesus ultrapassam em muito o aspecto físico. O Senhor devolve ao ser humano não apenas a saúde, mas a dignidade, eliminando o que marginaliza.

Um ponto curioso: tanto a mulher quanto Jesus transgridem as leis. Ela se aproxima dele, no meio da multidão, e lhe toca o manto. Ele se deixa tocar e busca, inclusive, saber quem lhe tinha “roubado” um pouco da força. Não à toa, a mulher, embora já curada, apresenta-se “cheia de medo e tremendo”, pois poderia ser punida se fosse aplicada a lei.

A frase de Jesus, “Filha a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença” (vers. 34) tem profundo significado. Cristo, como em outras vezes, devolve à Lei o verdadeiro sentido: o amor. E mais: o verbo sesoken pode ser traduzido como “curou” ou “salvou”. O termo aparece mais adiante, também em Marcos (10,46-52), no fim passagem da cura do cego Bartimeu, quando o Senhor diz o mesmo: “Vai, tua fé te salvou”.

No versículo 35, volta-se à cena da filha de Jairo. A narrativa retoma no pior contexto possível. Alguém da casa chega e informa que a menina havia morrido. Jesus, contudo, reforça a importância de se ter fé.

Aqui reaparece o número doze, desta vez como a idade da adolescente. Tanto a menina quanto a hemorroíssa estavam à sombra da morte. A primeira, por morrer no início de sua maturação como mulher, não podendo se casar; a segunda, por doze anos ser socialmente excluída, devido à enfermidade. Nenhuma delas poderia gerar vida, o que era uma “maldição” para o costume daquele tempo.

Jesus é o Senhor da Vida, por isso Ele toma a menina pela mão e a convoca a levantar-se. O verbo egeirein (“levantar-se”) é muito usado no Novo Testamento para expressar a ressurreição de Cristo. No versículo 42, usa-se a palavra anestē, a mesma empregada para designar a ressurreição.

Sempre é bom reforçar: os Evangelhos não são livros de reportagem, mas fontes de catequese a ecoar os ensinamentos e a missão de Jesus. Neste caso, poderíamos dizer que os dois episódios são uma catequese pascal, mostrando a vitória da vida sobre a morte.

A súplica de Jairo em favor da filhinha, “que ela sare (seja salva) e viva”, resume o projeto do Filho de Deus. Ele nos ergue, tirando-nos de diversas formas de morte. Nos passos de Cristo, tenhamos uma fé robusta, que cura, salva, resgata para a vida os mais necessitados e excluídos.

Alessandro Faleiro Marques
Diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.