16º Domingo do Tempo Comum

“Jesus teve compaixão”
Marcos 6,30-34

Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito central: o da “compaixão” de Jesus. Os evangelhos todos (especialmente Lucas) enfatizam esse aspecto da pessoa e missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão por todos os que sofrem. Os versículos de hoje demonstram esse traço de Jesus em seu relacionamento com os discípulos e com as multidões.

Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios que não correspondem ao grande critério da nossa sociedade: o da eficácia. Para Ele, os apóstolos não eram máquinas, mas pessoas humanas que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho (mesmo o trabalho missionário) não é o absoluto.

Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para muitos cristãos engajados hoje: embora precisemos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos descuidar de nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros, especialmente no seio da família. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai.

Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos de então que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo ia atrás dele. O que atraía tanta gente? Com certeza, não foi em primeiro lugar a doutrina nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão, de demonstrar concretamente o amor compassivo de Deus. Jesus não teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”. Literalmente, entrava no sofrimento deles e tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva.

Esse traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do Pai. Não é sem motivo que o Papa Francisco nunca se cansa de enfatizar a misericórdia e a compaixão, pois a fidelidade ao Mestre exige isso. Infelizmente, a frieza humana frequentemente marca nossas atitudes, pregações e cuidado pastoral. Em um mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões, hoje, como 2 mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.