25º Domingo do Tempo Comum

“Os últimos serão os primeiros”
(Mt 20,1-16)

Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o centro da pregação de Jesus era “O Reino de Deus” (ou dos Céus, que, em Mateus, significa a mesma coisa). Mas Jesus nunca define o Reino; pelo contrário, sempre o descreve por meio de parábolas, para que o ouvinte se esforce para descobrir quais são os valores que tornam o Reino de Deus presente no meio de nós.

A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa, mas com seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos, e a maioria trabalhava ou como arrendatários ou como “boias-frias”, como diríamos hoje. Embora a cena situe-se na Galileia de 2 mil anos atrás, ela bem poderia ser no Brasil da atualidade. Apresenta uma situação de trabalhadores braçais desempregados, não por querer, mas “porque ninguém os contratou” (v. 7). Talvez haja uma diferença, comparando com a situação de hoje: na parábola, o salário combinado era uma moeda de prata, um denário, que, na época, era o suficiente para o sustento de uma família por um dia, o que nem sempre se verifica hoje.

O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz; logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, aposentado, doente, excepcional. Na parábola, o patrão (símbolo do Pai) usa como critério de pagamento não a produção, mas o sustento da vida: também o trabalhador da última hora precisa sustentar a família e, por isso, recebe o valor suficiente: um denário.

O Reino tem outros valores da sociedade neoliberal do nosso tempo: a vida é o critério, não a produção. Por isso quem procura vivenciar os valores do Reino estará na contramão da sociedade dominante. O texto nos convida a imitar o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade e no trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção e consumo.

Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido. Começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade, eram “da última hora”. Mateus conta a parábola para ensinar a eles que, no Reino, experimentado por meio da comunidade, não pode haver discriminação entre cristãos de várias origens; por isso “os últimos serão os primeiros”. O critério é a gratuidade de Deus Pai, pois tudo o que temos recebemos dele, e sendo todos filhos e filhas amados dele, a comunidade cristã não pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

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