2º Domingo do Tempo Comum

“O que estais procurando?”
Jo 1,35-42

O autor do Quarto Evangelho organizou o material dos versículos de 1,19-2,12 em um esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus (as Bodas de Caná), cuja consequência foi que “os seus discípulos creram nele” (2,11). Assim fez lembrar os sete dias da Criação, pois, com e em Jesus, acontece a nova criação.

Mas Jesus não quis agir sozinho e, desde o início, chamou para si um grupo de seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos, que descreve o chamado dos primeiros discípulos à beira do mar de Galileia (Mc 1,16-20), talvez o relato do Quarto Evangelho guarde uma tradição mais histórica, os primeiros discípulos de Jesus eram seguidores de João, o Batista.

O texto de hoje relata a vocação dos primeiros discípulos: André, um discípulo anônimo (o Discípulo Amado?) e Simão Pedro. O chamado dos primeiros discípulos nos apresenta um retrato de vocação válido para todos os tempos e todas as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental: “O que vocês procuram?”. Essas são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João. Uma pergunta muito importante para todos nós hoje: o que é que nós procuramos na vida? O que é o mais importante para nós? Onde procuramos nossa felicidade e realização? Não é uma pergunta meramente teórica, é a base de nossa vivência. Essa pergunta nos interroga, como interrogou os primeiros discípulos, sobre a busca que dá sentido à nossa vida.

A resposta dos dois, “Mestre, onde moras?”, mostra que eles queriam criar comunhão com Jesus, pois a frase não significa descobrir seu endereço, mas sua proposta de vida. Ele lança a eles um desafio com o convite: “Venham e vejam”. Em João, “ver” tem o sentido de “crer” (Jo 6,40). Não se trata simplesmente de conhecer a moradia dele, mas algo muito mais profundo: descobrir quem é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai. Ambos escolhem unir suas vidas e seus destinos a Jesus, pois “ficaram com ele”. Não é possível ser discípulo de Jesus sem que demos tempo para ficarmos com ele: na oração, na reflexão, na leitura de sua Palavra.

Mas, para que sejamos discípulos, discípulas, não basta conhecer Jesus de uma maneira intimista e individualista. Logo, André procura partilhar sua descoberta, fazendo com que o próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje também é fundamental que os cristãos testemunhem Jesus, para que outros possam crer nele; e esse testemunho é dado muito mais por nossa maneira de viver e agir do que com nossas palavras.

O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo nome de “Pedro”: mudar o nome de uma pessoa na Bíblia, muitas vezes, significa uma nova identidade, uma nova vocação (Abrão, Jacó, Sarai, etc.). Pedro vai dar muitas cabeçadas antes de descobrir sua verdadeira identidade. Aliás, somente a encontra no fim do Evangelho, no capítulo 21, quando confessa seu amor incondicional por Jesus e pela comunidade, e ouve o convite definitivo do Mestre: “Siga-me”. Pedro simboliza a experiência de todo discípulo. O seguimento de Jesus é uma caminhada de uma vida toda, com muitos erros e desvios. Mas o amor incondicional de Deus é capaz de vencer todas as fraquezas e pecados.

Ser discípulo é um aprendizado permanente. Para que façamos essa caminhada, é necessário que sigamos os passos dos primeiros discípulos. Que saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos criar comunhão com Jesus e com a sua comunidade, e que gastemos tempo com ele. Assim teremos a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida e, como os discípulos, chegarmos a realmente “crer nele”, não de uma maneira teórica e difusa, mas por uma experiência real do Deus da vida, encarnado em Jesus de Nazaré.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.