A espiritualidade cristã

O cerne da espiritualidade cristã visa à vida plena, por isso contempla a alegria, o deleite e a fruição da vida. Nesse viés, comporta exigências éticas que brotam do projeto de vida de Jesus: o Reino de Deus.

Entretanto, para melhor compreender o que é a espiritualidade cristã, devemos falar dos perigos que a cercam e que, muitas das vezes, a distorcem. O termo espiritualidade tem sido relacionado com espírito e, para muitos, espírito é oposto à matéria. Essa concepção criou uma dicotomia entre espiritualidade e felicidade humana.

Com o passar do tempo, o termo espiritualidade foi sendo identificado com o oposto à corporeidade, inclusive à sexualidade, criando-se um desprezo pelo sensível e o corporal. Isso acarretou uma ruptura entre o divino e o humano, chegando-se a acreditar que, para adentrar-se no caminho espiritual, seria preciso renunciar ao essencial de si mesmo.

O que o ser humano quer é ser feliz, realizar seus anseios mais profundos. Por isso uma espiritualidade que sufoque esse ser humano necessariamente fracassará.

O escritor Juan Antonio Estrada define a espiritualidade cristã como “a vida guiada pelo espírito de Cristo”. Dessa perspectiva, a espiritualidade envolve toda a vida da pessoa (sua individualidade, suas relações sociais e públicas, sua condição de cristão e de cidadão).

Portanto, o ponto de partida da espiritualidade cristã encontra-se onde começa o seguimento de Jesus. Mas seguir Jesus não é seguir normas, ideias abstratas ou um programa determinado. Seguir Jesus é andar nos passos de uma pessoa e segui-la sem condição (cf. Mt 8,18-22; Lc 9,57-62), e em plena liberdade. Trata-se de estar disponíveis à causa do Reino de Deus. E o Reino de Deus é um projeto de vida, de humanização e de felicidade para todos, especialmente para os que mais sofrem.

Evidentemente, a espiritualidade cristã tem uma estrutura sacramental e, portanto, é celebrativa e comunitária.

Por isso, enquanto não tenhamos clareza do que realmente é a espiritualidade, corremos o risco de viver numa constante contradição de sermos buscadores de “perfeição espiritual” e, ao mesmo tempo, agressores da obra de Deus, a vida humana.

Os Evangelhos mostram que Jesus deixou-se conduzir pelo Espírito de Deus, para aliviar o sofrimento humano e devolver a dignidade aos caídos… (cf. Lc 4,16-21; Mt 4,23-25). Deixar-nos conduzir pelo Espírito do Senhor, sermos espirituais é preocupar-nos não somente com normas religiosas ou ascese, mas sim com a vida inteira das pessoas.

Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.