A ferida invisível da ingratidão: entre o ideal do bem e a dignidade do sujeito

Há dores humanas que não aparecem nos diagnósticos clínicos, mas que corroem silenciosamente a alma. Entre elas, a ingratidão talvez seja a mais profunda. É a ferida invisível que sangra por dentro, especialmente no coração daqueles que dedicam a vida ao bem; religiosos, líderes comunitários, cuidadores, pais, educadores, voluntários, pessoas que fazem do cuidado uma forma de existir.

A máxima comum “Não se deve fazer o bem esperando algo em troca” é verdadeira, mas insuficiente. Não se trata de buscar recompensas, mas de preservar a própria dignidade. O que fere não é a falta de aplausos; é a traição, a falsidade, o apagamento da pessoa, como se sua presença fosse óbvia e descartável. É o que Hannah Arendt chamaria de “banalidade do mal”, não o mal espetacular, mas o mal sutil, cotidiano, que brota da indiferença e da incapacidade de reconhecer o outro como sujeito.

 

O impacto psicológico da ingratidão

 

A Psicologia contemporânea tem mostrado que a falta de reconhecimento adoece. Segundo estudos de Brené Brown, pesquisadora da Universidade de Houston, a vulnerabilidade é um espaço de encontro humano, mas também o lugar onde feridas emocionais podem gerar vergonha, retraimento e perda de sentido. Quando alguém que dá o melhor de si recebe em troca hostilidade ou silêncio, instala-se o que os psicólogos chamam de lesão moral, um dano interno que afeta a identidade e a autoestima.

Carl Rogers, ao falar da pessoa plenamente funcional, já afirmava que um sujeito floresce em ambientes onde suas experiências são reconhecidas e acolhidas. O contrário, ambientes de “desconfirmação”, de pressão, de constantes rotulações provoca desintegração interna e a sensação de não ter lugar no mundo.

 

A dor silenciosa no campo religioso

 

No âmbito da vida consagrada e do ministério sacerdotal, essa realidade se intensifica. A tradição cristã sempre exortou os discípulos a servir sem esperar nada em troca. No entanto, quando o servir implica anulação da pessoa, corre-se o risco de transformar vocações vivas em desertos áridos.

A Sociologia da Religião observa, há anos, a crise da vocação, mas pouco se fala sobre sua raiz emocional. Pesquisas de Donald Capps e Antoine Vergote indicam que muitos religiosos adoecem não porque perderam a fé, mas porque perderam o chão humano para sustentá-la. São marcados por práticas internas de exclusão, conflitos ideológicos, facções e a dolorosa experiência da ingratidão, a percepção de que sua história, seus dons e suas convicções foram descartados.

A espiritualidade cristã, desde Santo Agostinho até Edith Stein, sempre insistiu que a graça de Deus não dispensa a saúde da alma. Quando um padre ou religioso é constantemente silenciado, rotulado ou colocado sob pressões desumanas, a vocação se asfixia. O chamado é permanece, mas o sujeito desaparece.

 

Entre o bem e a erosão interior

 

Quando a ingratidão se torna frequente, surge a tentação de se tornar “erosivo”: endurecer-se, fechar-se, não se importar mais. É um mecanismo de defesa compreensível. No entanto, como alerta Viktor Frankl, o ser humano só encontra sentido quando é capaz de permanecer fiel a si mesmo, e isso inclui proteger-se sem perder aquilo que o torna humano.

O bem que fazemos não exige prêmios, mas tampouco deveria gerar feridas. Fazer o bem não deveria custar a própria identidade.

 

Por um equilíbrio que salva vidas

 

Viver bem, servir bem e amar bem exige equilíbrio. Exige limites saudáveis, discernimento, apoio psicológico e espiritual. Exige também ambientes institucionais que reconheçam a pessoa e não apenas a função, algo que a Psicologia organizacional de Edgar Schein vem insistindo há décadas.

Quando esse equilíbrio não existe, um projeto de vida se desfaz. Os sonhos se transformam em pesadelos. O caminho se torna sem horizonte. E, como mostram pesquisas internas de várias congregações, muitos religiosos que deixam a vida consagrada o fazem não por falta de fé, mas porque foram destruídos pela ingratidão e pela desumanização.

 

O bem precisa de humanidade

 

Se queremos uma sociedade e uma Igreja mais saudáveis, precisamos resgatar o óbvio: quem faz o bem também precisa ser cuidado. Não de recompensas, mas de humanidade. De reconhecimento essencial, de respeito mínimo, de espaços onde se possa respirar.

O filósofo Emmanuel Lévinas escreveu que “o rosto do outro me chama à responsabilidade”. Cuidar daqueles que cuidam é talvez o primeiro passo para reconstruir relações, instituições e comunidades feridas.

Porque, no fim, ninguém consegue ser luz quando é continuamente apagado por dentro.

 

Para saber mais

 

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

 

BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

 

CAPPS, Donald. The depleted self: sin in a Narcissistic Age. Minneapolis: Fortress, 1993.

 

FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Lisboa: Edições 70, 1980.

 

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 

SCHEIN, Edgar H. Organizational culture and leadership. San Francisco: Jossey-Bass, 2017.

 

STEIN, Edith. A ciência da cruz. Lisboa: Carmelo, 2008.

 

VERGOTE, Antoine. Religião, crença e psicologia. São Paulo: Paulinas, 1998.

 

 

Padre Cristóvão Gonçalves da Silva

Missionário do Verbo Divino. Artigo publicado originalmente em “Amigos do Verbo: suplemento de reflexões para o dia a dia”, Província SVD Brasil Norte, nov. 2025.

 

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