A genealogia de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mt 1,1-18)

O Messias da justiça e da misericórdia vem derrubar padrões de exclusão e de injustiça. Ele também nos apresenta um caminho novo, em que a prática do amor e da misericórdia aproxima o reinado de Deus.

Na introdução ao Evangelho, a genealogia (Mt 1,1-17) apresenta nomes concretos de cinco mulheres. Por meio dessas pessoas, o autor nos conduz à origem, identidade e missão do Messias dos excluídos.
Mas quem são essas mulheres que aparecem junto com Maria na genealogia? Será que estão aí por acaso ou propositalmente?

Busquemos as possíveis respostas no mesmo texto: “Genealogia de Jesus – Livro da origem de Jesus Cristo filho de Davi filho de Abraão” (versículo 1). A seguir, os versículos 2 a 16 apresentam uma lista de 42 nomes, dentre os quais 5 são de mulheres, algo incomum na cultura dos antigos judeus. Por isso os versículos 3, 5 e 6 são uma importante chave de leitura do texto. É neles que se estabelece uma relação de sentido. Pois, no meio de destacadas figuras de patriarcas, reis e sacerdotes do povo de Israel, o evangelista insere os nomes de mulheres estrangeiras.

Assim, temos Jesus inscrito numa genealogia abrangente de distintos varões da história de Israel (Abraão, Isaac, Jacó, Davi…), reafirmando com isso sua origem judaica, sua identidade e missão. E, ao mesmo tempo, entre essas personalidades destacadas, citam-se mulheres pouco conhecidas que, aliás, fizeram parte dos grupos mais marginalizados (Tamar, Raab, Rute, a mulher de Urias). Nesse sentido, podemos concluir que seus nomes não estão por acaso no texto; pelo contrário, essas mulheres aparecem com o sentido expresso de apontar a Jesus como o Messias da justiça e da misericórdia, o Messias dos excluídos.

Outro detalhe interessante nessa genealogia é o destacado nome de Maria. A mulher era considerada secundária na dinâmica de gerar a vida. A citação do nome de Maria em consonância com o verbo gerar (Maria é quem gera a vida e José é o esposo) rompe com aquela estrutura patriarcal (androcêntrica). Nessa genealogia, Maria se torna sujeito, serva do Senhor, e não mais servidora submissa de um sistema injusto.

Numa sociedade que marginaliza e exclui até em nome de Deus, o texto da genealogia de Jesus Cristo é convite ousado contra o sistema inumano. É urgente que, com Tamar, Raab, Rute, a mulher de Urias e Maria, recuperemos nossa origem e identidade em Jesus, para abrirmos espaços de justiça, igualdade, amor e misericórdia.

Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.