A civilização tecnológica está fundamentada em uma concepção de conhecimento que separa o humano da natureza e o torna violador dela. Seu produto é o mundo artificial, obra e ação do Homo faber, até nossos dias espelhada predominantemente na mentalidade de homens brancos, escolarizados e com poder econômico. É ele o autor dos discursos oficiais articuladores das diretrizes ambientais, econômicas e sociais. A estrutura de pensamento patriarcal resultante assombra os contextos de nossa existência pública, privada, familiar, profissional e espiritual.
A luta por maior diversidade nos espaços de poder, incluindo a participação das mulheres, é essencial para a superação de uma cosmovisão enraizada na vivência privilegiada de um grupo que, obviamente, decide a partir da sua limitada experiência e condição humana.
Esse enfrentamento também diz respeito à educação e áreas do conhecimento, como ciência, tecnologia e humanidades. Maria Clara Dias, ao elaborar a associação entre a filosofia da mente e a questão da técnica, analisa três correntes: a bioconservadora, a transumanista e a pós-humana.
Ao enfatizar o transumanismo e a condição pós-humana, a filósofa brasileira sinaliza a presença de técnicas de aprimoramento, desde tempos imemoriais, em situações como o uso instrumental de pedras, o fogo para cozinhar e o vestuário possibilitador da vida em ambientes variados. Também situa as linguagens pictórico-rupestre, oral e escrita como sistemas acoplados estruturantes dos meios de compartilhamento de nossos mundos mentais.
Ao trazer a reflexão para os desafios do presente e do futuro, Maria Clara considera importante questionar: quem tem (ou terá) poder de decisão e controle sobre a ciência, tecnologia e sistemas acoplados? A essa pergunta acrescentamos: quais são os aspectos simbólicos, sentidos e significados fundamentadores de nossos processos decisórios cotidianos sem mesmo nos darmos conta?
Essas indagações e a pervasividade tecnológica em todas as dimensões da vida ampliam a importância da participação de mulheres na ciência, na tecnologia, na filosofia, na política e em cargos de liderança, inclusive na Igreja. A perspectiva das mulheres é importante para a existência de outras representações para além daquelas imaginadas pelo Homo faber. É também pauta para a educação ecológica, tendo em vista que a pluralidade passa pela dimensão social, e a mudança de mentalidade inicia-se com a educação na infância.
Para saber mais
ARENDT, Hanna. A condição humana. 13. ed. São Paulo: Forense, 2016.
DIAS, Maria Clara. A perspectiva dos funcionamentos: um olhar ecofeminista e decolonial. Direito e Práxis. Rio de Janeiro, v. 9, n. 4, p. 2503-2521, 2018. Disponível em https://www.scielo.br/j/rdp/a/ypwHX3fnksKKdQ9wMfnczMb/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 25 nov. 2025.
DIAS, Maria Cara. Ética, convivência e tecnologia (palestra). Disponível em: https://youtu.be/jqLJ6JlQ7j0?si=IEtwKzH9TMRkvTLz. Acesso em: 25 nov. 2025.
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006.
Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br).
Foto principal: Yaroslav Shuraev (Pexels).

