A lógica de Deus e a lógica humana

A lógica de Deus parece ser diferente da lógica que rege os humanos. Há algumas contradições entre as duas. Na lógica de Deus, quem quer ganhar a vida, tem de perdê-la. Em nossa lógica, queremos, a todo custo, preservá-la. Na de Deus, é preciso amar os inimigos e desejar-lhes o bem; na nossa, é “olho por olho, dente por dente”, odiar é direito, guardar mágoa quando ofendido e, se possível, vingar-se quando tiver ocasião. Na de Deus, quem quiser seguir a Jesus precisa carregar sua cruz, renunciar a si mesmo; em nossa lógica, o sofrimento não devia existir, ao menos para aqueles que fazem o bem: como admitir que um inocente sofra?

Na lógica de Deus, Ele é o único salvador; na nossa, são as ideologias, e salve-se quem puder, por própria conta, e que a conquiste o mais forte. Na lógica de Deus, todos deveríamos nos sentir e viver como irmãos, sem exclusões, não importando a raça, a cor ou a nacionalidade. Na lógica humana, só deve ter vez quem é dos nossos, os outros que se danem, especialmente os de fora, estrangeiros!

Na lógica de Deus, quem quiser ser o maior tem de ser o menor e o que mais serve. Entre nós, melhor é o mais competente e que tem mais sucesso, o que se sobrepõe aos demais. Na lógica de Deus, a partilha dos bens deve garantir que todos tenham o necessário para vida digna; em nossa lógica, é a “lei do mercado”: merece mais quem produz mais e vende mais, e se puder vencer o concorrente.

Diante disso, fica um dilema: a qual lógica aderir?

Essa luta pela “lógica”, termina quando? Qual a prova convincente de quem tem razão? Qual o argumento que decide?

Fiquei pensando comigo… Deve haver algo que não está sendo bem entendido! Porque, para quem crê, está claro que deveria ser a de Deus! Mas a realidade aponta para a diferença, mesmo entre os crentes! Por que essa luta entre a lógica de Deus e a nossa? Não deveria ser uma só: a de Deus? Como explicar a diferença?

Vieram-me em mente algumas. Entre outras, pensei nestas: Deus pensa grande em relação a nós. Tem projeto que abarca esta vida e a da eternidade. Nós pensamos pequeno, nossos horizontes terminam onde o Sol se põe. Os projetos de Deus estão além desta vida. Deus nos quer a todo custo, e sua estratégia é o amor sem limites; nossa estratégia se firma em nossa autossuficiência e na mesquinhez do amor interesseiro. Deus aposta alto para nos salvar, enviou seu Filho, que morreu na cruz, como prova maior.

Nossa aposta é ganhar dinheiro (incluindo uma loteria acumulada!) para garantir a vida e, se possível, sem cruz. Deus nos quer participante de sua criação e a deixou sob nossos cuidados. Nossa resposta é de apossar-se dela e consumi-la sem limites, não importam as consequências. Deus criou o mundo como um jardim; nós o transformamos numa área árida e num atoleiro de intrigas entre pessoas, vizinhos e entre países, em que predomina a ganância, que quer dominar tudo para proveito de poucos.

Deus nos propõe a paz e a reconciliação; nós optamos pela guerra, e que vença o mais forte, com suas armas sofisticadas de destruição. Em Deus, prevalece a misericórdia; entre nós, a discórdia e a vingança. Deus quer ser luz para nós; muitos preferem a escuridão, onde possam fazer as coisas escondidos (corruptos) sem precisar prestar contas a ninguém. Deus nos quer humildes e servidores. Entre nós, há os prepotentes, querem ser senhores. Deus nos propõe a fé e a confiança nele como condição para participar de seu projeto salvífico. Muitos optam pela indiferença, porque sua esperança está alicerçada na ciência que pode oferecer as respostas; é só uma questão de tempo, como muitos propagam e tantos acreditam.

Enquanto a lógica de Deus e a nossa se digladiam, a vida vai passando, e chega uma hora, que é a do exame final, a questão da lógica deve ser definida. Quem vai ser o juiz que decide, quem tem razão? Qual o argumento que vai prevalecer sobre o valor da vida? Qual é seu fim? A questão básica que estará na balança é: qual o futuro da vida? Na lógica de Deus, é a eternidade. Seu argumento é seu Filho oferecido como caminho, verdade e vida, que passou pela cruz e a morte, e ressuscitou.

Numa palavra, a resposta é garantia de Ressurreição! Na lógica humana, restou o cemitério como conclusão!

 

 

Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS

 

 

 

Imagem principal: Jacob Wackerhausen (Istock)

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