Vivemos hoje em um mundo com muita tecnologia e meios de comunicação fantásticos pela agilidade com que as coisas correm e são comunicadas. Podemos nos relacionar com muitas pessoas ao mesmo tempo, basta postar nos grupos de WhatsApp, no Face ou Instagram, e logo o que dizemos chega aos destinatários, e podemos ter milhares de “seguidores”. Tudo isso é conquista da inteligência humana que, aplicada, desenvolve tecnologias cada vez mais refinadas e cambiantes.
Há um “porém” que precisa ser levado em conta. De nada adianta tanta tecnologia se elas apenas levam “mensagens” desprovidas do eco profundo do coração. É preciso ouvir a voz da vida que pede espaço e atenção, que raramente passa pelos zaps ou faces. Uma dor, quando é compartilhada, se não encontra no coração do outro a compaixão, ela fica só com quem a sofre.
Quase diariamente, escuto pessoas que buscam ouvidos atentos e coração aberto para acolher seus sofrimentos, sem julgamentos prévios e sem preconceitos. Quando a dor física ou emocional é compartilhada com alguém que escuta com compaixão, a pessoa sente-se aliviada e em condições de suportar, com mais coragem, os próprios sofrimentos, muitas vezes difíceis de resolver. Na verdade, a maioria das pessoas não espera que se resolvam seus problemas, espera apenas ser compreendida, aceita e ter a liberdade de manifestar o que está machucando seu coração ou sua vida. Quem escuta não precisa ter a solução para os problemas do outro, mesmo porque quem os tem que é o protagonista da própria solução.
Ser compassivo é ter um coração que hospeda o sofrimento alheio por algum tempo, fazendo-o seu também. Em outras palavras, é preciso deixar-se sacudir pelo sofrimento do outro para despertar o sentimento de solidariedade e, através dele, aguçar o desejo de estar próximo, sem invadir a intimidade do outro nem o violentar com consolações abstratas desfocadas da origem do sofrimento.
A vida fala se há um coração que escuta. Para treinar o coração para isso, é preciso introspecção e exercitar-se em separar problemas pessoais daqueles dos outros. Antes de escutar os problemas dos outros, é preciso educar-se para escutar os seus. Exercitar-se na escuta dos próprios “gemidos” e sussurros que a vida tem escondidos nos seus “porões”. De lá vem o pedido que seja dado a ela uma esperança que vá além daquilo que a aflige no momento. Todos, independentemente de crença ou condição social, somos depositários de tal desejo. Se não aprendemos a nos escutar, teremos muita dificuldade de escutar alguém que busca reencontrar-se com suas esperanças.
Nesse quesito, não podemos confiar que a solução esteja no manejo das mídias sociais. Podemos ser especialistas nelas, mas podemos continuar longe do coração das pessoas. A sensibilidade compassiva para a escuta passa pelo coração compassivo. Sem ele, sobram bons conselhos, julgamentos precipitados, absolvições ou condenações desajuizadas.
A vida fala se há um coração que escuta. Aprendamos a escutar e deixemos a vida falar. Que possa falar de seus lamentos e sofrimentos; que possa revigorar sua esperança por vezes sufocada; que possa encontrar sentido para ela quem estava sem futuro, mergulhada em seus sofrimentos, como quem, morta sem sepultura, perambulando como sonâmbula que não tem consciência do que faz nem para onde vai. Escutemos nos ecos das falas que relatam as angústias sofridas por alguém que precisa ser escutado por um coração sensibilizado pela compaixão. A vida fala quando encontra um coração sensível que escuta, com atenção, o que ela diz.

