Começa o Advento. E, com ele, este tempo profundo em que o coração se veste de silêncio e esperança, preparando-se para a chegada do Natal. É o tempo de acolher o mistério: o Filho de Deus, o Verbo eterno, fazendo-se criança (pequena, frágil, cheia de ternura) para habitar no meio de nós.
Como Maria, também nós esperamos. Esperamos o Deus que vem morar conosco, que se faz um de nós para revelar o amor sem limites do Pai e convidar-nos a participar de seu Reino, a vida vibrante da Trindade.
Mas, afinal… o que estamos esperando?
Nossa existência é feita de esperas; algumas cheias de esperança, outras carregadas de inquietação. Se formos sinceros, estamos sempre à espera de algo: de um desejo que ainda não alcançamos, de um sonho que teima em não nascer.
Quando somos pequenos, esperamos crescer. Depois esperamos passar de ano, esperamos a formatura, o primeiro emprego, o amor da nossa vida. Esperamos pelos filhos, por uma casa melhor… ou, para muitos, simplesmente por um lugar digno onde morar.
E assim a vida segue, de espera em espera. Realizamos um sonho, e logo outro se levanta no horizonte, sempre um pouco mais distante. Enquanto alguns continuam a esperar, muitos se perdem no caminho das frustrações, esquecendo que ainda é possível sonhar.
Mas há um mistério que nenhum de nós deseja esperar, embora saibamos que um dia virá: a morte. Tentamos varrê-la para longe, como se, ao negar sua existência, prolongássemos a nossa. No entanto, quando temos a coragem de fitá-la de frente, descobrimos que ela é somente passagem, uma porta aberta para outra vida, mais plena, mais luminosa, um novo céu e uma nova terra.
O Advento também canta essa esperança: o dia em que o amor de Deus inundará tudo, transbordando alegria, justiça e paz.
E então perguntamos: será que esse mundo onde crianças brincam sem medo, jovens dançam sem amarras, famílias repartem o pão em abundância e os mais velhos contam histórias sem preocupação com o amanhã… não é justamente o Reino de Deus que Jesus inaugurou e que nós ainda hesitamos em construir?
Será que, no fundo, aquilo que esperamos é uma vida digna já aqui, sem violência, sem guerras, sem genocídios, sem confrontos que ceifam vidas inocentes?
Talvez o Advento nos chame a isto: um tempo de transformação, de deixar o que é velho para trás e ousar uma nova humanidade.
Se tudo o que esperamos até hoje não nos sacia, talvez seja hora de abandonar políticas injustas, a exploração dos pobres e da Casa Comum. Talvez seja tempo de recomeçar.
Uma vida nova. Uma vida simples. Uma vida que nasce do sorriso do Menino da manjedoura; esse olhar terno que parece nos dizer “Chega de esperar. O mundo que desejamos começa agora. E começa em nós”.
Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpS
Coordenadora da Província Stella Matutina (Brasil Norte).
