Água como privilégio de poucos

A inversão de valores na nossa sociedade chega a ser espantosa, principalmente quando ela é realizada como se fosse algo “natural”. É o milagre do mercado: promover mudanças de grande impacto na vida da maioria de forma a beneficiar poucos, mas com o consentimento de todos. A água, elemento essencial para a existência, até há pouco tempo era considerada patrimônio público, mas uma simples operação do mercado a tornou privilégio de um reduzido grupo de pessoas. Dessa forma, um bem comum é transformado em propriedade privada, visando beneficiar os proprietários em detrimento do conjunto da população.

Esta arrojada operação é realizada no município de Barcelos, Estado do Amazonas, por uma empresa cujos donos decidiram investir no ramo das fine waters, mercado de águas especiais. Tal empresa desenvolveu uma tecnologia capaz de captar a água lançada no ar pelas florestas amazônicas, viabilizando o seu engarrafamento em embalagens cristalinas de 750ml para serem vendidas no seleto mercado internacional por R$ 463,00 reais.

Trata-se de um investimento milionário que visa render muitos outros milhões aos empresários, pois este é o objetivo principal de todo empreendimento ao entrar no mercado. Utiliza-se dos elementos da raridade e da escassez para valorizar o produto e assim, justificar os altos preços cobrados aos que podem pagar. No caso em questão, os empresários se apropriam de parte dos “rios voadores” gerados gratuitamente pela transpiração das árvores amazônicas e os revertem em lucros privados neste reduzido mercado hídrico.

Em Manaus, as classes empresariais e financeiras também se apropriaram de parte das águas do Rio Negro, transformando um patrimônio público em propriedade privada para ampliar os seus lucros no mercado do abastecimento de água. Aqui também através da privatização dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, um bem insubstituível que pertence a todos é metamorfoseado em um privilégio oferecido apenas aos que podem pagar.

Dessa forma, em torno de 258.871 famílias manauenses, que auferem somente meio salário mínimo ao mês (CadUnico, Dez./2020), encontram grandes dificuldades em obter água potável em virtude dos elevados preços cobrados pela concessionária Águas de Manaus, que é controlada pela multinacional Aegea Saneamento & Participações. Não podendo responder aos interesses rentistas do mercado, tal contingente populacional é marginalizado pela empresa, usufruindo de serviços precários ou sobrevivendo com a sua total ausência.

Esta operação de transformar bens públicos em privilégio de alguns é cada vez mais implantada em todo o território nacional, uma vez que a lógica do mercado avança sobre todos os setores da sociedade, sendo estimulada pelas políticas públicas adotadas pelo governo federal e cada vez mais pelas esferas estaduais e municipais.

Diante das crises que vivemos hoje, espera-se que tal tendência seja revertida. E assim, os bens comuns voltem a ser propriedades da população e geridas de forma participativa e democrática para o benéfico de todos.

Pe. Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio, mestre em Ciências Sociais pela Unisinos/RS, bacharel em Teologia e bacharel em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (MG). Membro da Companhia de Jesus (Jesuíta), atualmente é professor da Unisinos e colabora no Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), sediado em Manaus/AM.