Aids: problema não pode ser esquecido

A pandemia do novo coronavírus está em destaque desde o fim de 2019. Outros problemas graves, no entanto, não podem ser deixados de lado. Um deles é a aids, sigla inglesa para “síndrome da imunodeficiência adquirida”. Em 1º de dezembro, comemora-se o Dia Mundial de Luta contra a Aids.

As estatísticas continuam assustadoras. Segundo a Unaids Brasil, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), no ano passado, houve 1,7 milhão de novas infecções. Até o fim de 2019, aproximadamente 38 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com o HIV, mas o aceso à terapia antirretroviral abrangia bem menos pessoas: cerca de 25,4 milhões (dados de junho de 2019).

Nos últimos anos, as pesquisas têm avançado muito. Já há casos de cura comprovada pelos cientistas, o que era algo impensável até há pouco tempo. A medicação está mais eficiente e menos agressiva. Algumas chagas, contudo, continuam a latejar, como políticas públicas deficientes em vários países, descuido na prevenção, abandono e até o famigerado negacionismo, que começa a surgir também em relação à aids.

Talvez o preconceito seja a dor mais forte, presente desde os primeiros registros de casos, no início da década de 1980. Não somente as pessoas mais vulneráveis e os infectados pelo vírus HIV são estigmatizadas. Além das dificuldades comuns de quem tem de cuidar de um ente querido, as famílias dos enfermos também são obrigadas a conviver com a discriminação.

Seres humanos preciosos

Os números são importantes, mas frieza deles, como em outras pandemias, esconde histórias de seres humanos preciosos. Em 26 de setembro de 1994, um ano após ser diagnosticada com o HIV, falecia Leda Grecco Duarte Oliveira. Ela tinha três filhos e trabalhava como instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo-SP. Quem conta um pouco sobre Leda é Neyde Grecco, a mãe, e o filho, Gabriel Grecco.

Pessoa linda

Leda

“Meu nome é Neyde Grecco, tenho 86 anos. Há 26, perdi minha única filha para essa terrível doença. O céu ganhou uma pessoa linda por dentro e por fora. Leda era uma pessoa muito boa, caridosa, trabalhadora. Ela era instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, local onde ficou por diversas vezes, aos cuidados do dr. Davi Uip, referência no tratamento da aids.

Na época, quando foi diagnosticada a doença, o tratamento era muito agressivo, e não havia muita resposta positiva. A recuperação era impossível, e a morte era quase rápida. Havia muitos efeitos colaterais dos remédios. Minha filha ficou cega de um dos olhos. Foi assim se debilitando até o momento final, sendo atendida no momento da morte, recebendo sangue. Mas foi tudo em vão.

O dr. Davi deu uma previsão de sobrevida negativa e calculou que a evolução do tratamento para essa doença levaria mais de dez anos. Leda tinha 42 anos quando nos deixou. Até hoje eu curto meus 3 netos e meus 5 bisnetos.”

Desprezo com o restante da família

“Meu nome é Gabriel Grecco. Perdi minha mãe quando eu tinha 14 anos. De quando ficamos sabendo da doença até o dia em que ela nos deixou, foi coisa de um ano; muito rápido. Foi um ano muito difícil, pois ver a evolução da doença foi triste, fora que tinha muito preconceito naquela época. Eu mesmo sentia desprezo de alguns vizinhos com o restante da minha família.

Eu rezava para aparecer um tratamento eficaz o quanto antes ou que Deus a levasse, para ela não sofrer mais. Só quem estava do lado viu o quanto foi difícil e doloroso tudo isso.

Sempre vou lembrar dela como uma guerreia, uma supermãe, carinhosa, educada, inteligente e aventureira, que vivia como ninguém. Viajávamos muito, moramos em muitos lugares legais, na cidade, na montanha, nas praias. Dos meus amigos, todos os que tiverem a oportunidade de conhecê-la sabem do que estou falando.”

Para saber mais

Unaids Brasil

Ministério da Saúde

Grupo de Incentivo à Vida (GIV)