O patrono do meio ambiente, São Francisco de Assis, via em todos os seres vivos, e até nos não vivos, seus irmãos ou irmãs. Pura infantilidade ou pieguice? Não, há nessa atitude algo de profundamente cristão, ainda que, na época, não existisse um fundamento científico para tal afirmação. Hoje, esse fundamento existe. No livro sobre o sesquicentenário SVD no Brasil, que está prestes a ver a luz do dia, faço uma longa explanação sobre isso.
Há bilhões de anos, o mundo vivo nasceu do mundo tido como não vivo, e, até hoje, qualquer ser vivo, para alcançar “plenitude de Vida” (João 10,10), depende inteiramente de seus antepassados e do mundo real à sua volta. Bem que nosso colega verbita, Pe. Cireneu, num momento inspirado, criou aquele belo refrão de música: “Tudo está interligado como se fôssemos um; tudo está interligado nesta Casa Comum”.
Quando, há seis anos, a meu ver, um pouco antes da hora, encaminharam-me para a Casa dos Idosos José Freinademetz, eu me perguntava: com duas pernas que ainda andam e dois braços que ainda se mexem, o que me resta fazer para a tal plenitude de vida, da qual esta imensa cidade de São Paulo sente tanta falta? Não demorou, e reparei no lindo bosque em volta de nossa casa. Que desafio espetacular tentar preservá-lo, do melhor modo possível, para essa louca “selva de pedra” poder continuar respirando de forma saudável!
E que decepção terrível perceber que a quase totalidade dos membros da vida religiosa consagrada ainda olham para um bosque desses como um mato qualquer, que serve apenas para auferir dele alguma vantagem. Os interesses coletivos não prevalecem sobre os nossos, sejam particulares ou institucionais? Decidi dedicar três dias por semana à preservação desta mata e, a cada dia, ela me dá novas lições.
Nós, seres humanos, nos consideramos muito sábios, mas as árvores têm uma sabedoria muito superior à nossa. Não erram nunca. Leiam o livro “A vida secreta das árvores”, do engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben. Chove muito pouco neste ano e, há muitos dias, faz um frio danado, mas elas não estão nem aí com isso. Vi, hoje de manhã, que muitas árvores já começam a trocar de roupa. As novas folhas nascem bonitas, e os frutos estão amadurecendo. O sol nasce mais cedo, e elas sabem que a primavera, mais uma vez, se aproxima. Também os pássaros o percebem. Às cinco horas da madrugada, alguns sabiás já rasgam a garganta para, quem sabe, impressionar uma possível namorada. Alimento para a filharada não vai faltar.
Debaixo das árvores, as raízes vão avançando, contornando velhos troncos, pedras ou até um possível veneno, garantindo energias renovadas para um novo ciclo de vida. Árvores caídas séculos atrás agora oferecem alimento para a vida prosperar. Vida e morte não são inimigas. Elas são como irmãs que se apoiam mutuamente. Para entender isso é só “reeducar o nosso olhar”, como já dizia, muitos anos atrás, o renomado arqueólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin.
Nosso erro é pensar que sabemos mais do que as árvores. Em vez de aprender com elas, a humanidade quis “dominar” sobre elas. E deu o que deu. Devemos voltar a fazer das árvores nossas mestras espirituais.
Missionário do Verbo Divino na Província Brasil Centro.


