As “brasas” do Espírito por debaixo das “cinzas” da vida

“Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo”

 

Neste início do chamado “Tempo Comum”, após a celebração do batismo de Jesus, a liturgia continua nos pedindo e nos propondo que “façamos memória”, mais uma vez, daquele evento tão significativo.

De fato, o grande protagonista da liturgia de hoje é o Espírito Santo.

As primeiras comunidades cristãs se preocuparam em diferenciar bem o batismo de João, que submergia as pessoas nas águas do Jordão, e o batismo de Jesus, que comunicava seu Espírito para purificar, renovar e transformar o coração de seus seguidores e seguidoras. João Batista anunciou que o Messias batizaria no Espírito. Para João evangelista, ser batizado por Jesus de Nazaré é participar de seu destino, é já se abrir para o Espírito que pousou sobre Ele em plenitude. Jesus se deixou conduzir pelo Espírito, e o seu batismo move as pessoas a entrarem no mesmo movimento do Espírito.

Sem esse Espírito de Jesus, a comunidade cristã se apaga e se extingue.

“Ver” o Espírito descer, descobrir que o Espírito pousou em Jesus, é a chave do testemunho de João. Essa sensibilidade não procede de seu esforço ou de sua vida austera e sacrificada; é um dom de Deus. Por isso, João vai além das aparências.

Nossa fé em Jesus nos leva a essa profundidade de visão, a descobrir o Espírito de Deus presente e atuando em nosso mundo, em nossa história. Essa é a consequência do tempo natalino que acabamos de celebrar.

Sabemos que o batismo é um processo; há um momento especial para seu ritual no seio da comunidade cristã. Mas a consciência de nossa identidade profunda só vai chegando lenta e profundamente.

Pode ser que chegue lentamente porque é demasiado grande para ser assimilado com rapidez. Como um bálsamo, desliza-se pela pele de nossa interioridade, impregnando cada poro, hidratando a secura de nosso coração, tão cansado de buscar fora o que já habita dentro. Somos seres habitados pelo mesmo Espírito de Jesus. É a água que abre nossa vida à “Santa Ruah, a água que elimina o pó de nossos espaços interiores, para que sejamos capazes de compreender, pouco a pouco, quem somos de verdade.

Entrar no fluxo do dinamismo profundo da Ruah é entrar em um espaço e refúgio seguro. A Santa Ruah entende de processos e de profundidades e, se permanecemos quietos, em silêncio expectante do qual nos fala o Evangelho, Ela realiza seu trabalho de transformação de nossas vidas.

É nesse movimento do Espírito em nós e através de nós onde o batismo, recebido ritualmente uma vez, adquire de novo seu significado: cresce em nós a consciência e a experiência da nossa filiação divina. E o movimento da vida começa a se expandir de novo, deixando para trás tudo o que atrofia a mesma vida: medo, solidão, sofrimento…; e, ao nos fazer passar pela água, o batismo desperta o sentido da própria existência, ativa o amor como dinamismo vital, nos possibilita respirar de novo, cura as feridas, nos faz ver o futuro com nova luz…

Sabemos muito bem que o maior obstáculo para colocar nossa vida em marcha, no seguimento de Jesus, é a mediocridade espiritual, o ritualismo estéril, o legalismo doentio… Movidos pelo “sopro” da Ruah, aspiramos, com todas as nossas forças, uma vida mais ardente, alegre, criativa, generosa, audaz, cheia de amor até o fim; em outras palavras, uma vida contagiante. Mas tudo será insuficiente se não arde nos nossos corações o fogo do Espírito.

Só o Espírito de Jesus pode tornar a vivência cristã atual mais verdadeira e evangélica; só seu Espírito pode nos ajudar a recuperar nossa verdadeira identidade cristã, abandonando caminhos que nos desviam do Evangelho; só esse Espírito pode nos dar luz e força para empreender a renovação que a Igreja precisa hoje.

Essa renovação atual não é possível quando a falta de uma espiritualidade profunda se traduz em pessimismo, fatalismo e desconfiança, ou quando nos leva a pensar que nada pode mudar, ou quando sentimos que é inútil esforçar-nos, ou quando baixamos os braços definitivamente, dominados por um descontentamento crônico ou por um esfriamento que seca a alma.

Segundo o Papa Francisco, “às vezes, perdemos o entusiasmo ao esquecer que o Evangelho responde às necessidades mais profundas das pessoas”. Tudo isso temos de descobrir através da experiência pessoal de identificação com Jesus; somos seguidores de uma Pessoa, e não de uma religião. Quem não alimenta uma paixão pelo seguimento e pela vivência do evangelho logo lhe faltarão a força e a criatividade.

Com Jesus chega um “novo tempo”, um tempo decisivo para a história da humanidade. “Tempo carregado” da presença do Espírito; por isso, tempo criativo, inspirador…

É Deus quem irrompe, de maneira definitiva, na temporalidade. A partir desse momento, a história fica dividida em dois tempos: o anterior e o posterior ao nascimento de Jesus.

Dessa maneira, o “Senhor dos tempos” faz de Jesus o centro e o ponto de referência do tempo dos homens. Todos os acontecimentos do mundo, tanto passados como futuros, encontrarão seu lugar e sentido a partir do “tempo central”, que é o tempo de Jesus.

O Espírito é aquele que habita o tempo, e nos habita. Estamos no tempo do Espírito que nos faz perceber o “espírito do tempo”; só assim viveremos o tempo de maneira criativa e ousada, como Jesus. Aos seus olhos, as realidades da vida cotidiana se tornavam transparências; Ele as olhava com olhos contemplativos; todas lhe falavam do Reino de Deus e do Deus do Reino que está sempre a caminho.

Não é raro encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo… Tempo que absorve, desgasta, esgota… e nos faz entrar numa frenética corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante…

Diante desse tempo, não há futuro auspicioso nem esperança que se sustenta. Nesse “tempo apertado”, o Espírito não consegue entrar, e a nossa maneira de viver fica desabitada e estéril.

O Espírito está no coração do tempo; Ele está ali como força explosiva que dá à nossa vida nova dimensão e uma densidade de sentido à nossa existência. De agora em diante, cada um de nossos momentos está cheio de Sua presença, transformando o “cronos” em “kairós”; de agora em diante, nada em nossas vidas é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e assume uma dimensão divina. Nada é banal, nada é comum para alguém que se deixa conduzir pelo Espírito.

É nesse nível do tempo inspirador onde respiram nossos desejos, onde nossa esperança bebe, onde nossos sonhos criam raízes… É nele que podemos moldar a arte de viver.

Nossa biografia humana se estende e se distende no tempo cotidiano. Sob o impulso do Espírito, queremos viver este tempo de forma extraordinária: queremos enchê-lo de sonhos, de aspirações, de criatividade. Queremos viver o tempo intensamente, vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejamos. Queremos viver de uma maneira original como tempo de sentido único, como tempo irreversível. Esse “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais. Não há um “segundo tempo”. “A vida não dá duas safras.”

O grande programa da vida é precisamente aprender a viver, acolhendo a novidade e a surpresa de cada tempo. Como o sedento busca a fonte, como o peregrino busca a meta, como o náufrago a orientação do farol, o ser humano vive no rio do tempo; está sempre a caminho; é sentinela do futuro.

O Espírito é “atmosfera de Deus”, “herança de Jesus” e “ambiente de realização do ser humano”; n’Ele a vida adquire profundidade, consistência; n’Ele o tempo é vivido sem sobressaltos e sem pressas.

Carregamos dentro de nós o melhor da vida. Somos uma história sagrada. É preciso exercitar o olhar contemplativo, buscando “ler” a vida pessoal e comunitária com o olhar mesmo de Deus.

 

Texto bíblico: Jo 1,29-34

 

Na oração: enquanto seguidores de Jesus, não somos homens e mulheres escravos da regularidade, dos costumes, dos horários e das normas; somos pessoas “tocadas pelo Espírito”, inspiradas por Ele. Fazer “experiência do Espírito” é abrir-nos à novidade, à criatividade, à mobilidade…

– Quem prevalece mais em sua vida: o costume, as normas, as expectativas dos outros… ou a inspiração do Espírito?

– Diante das mudanças sociais, eclesiais e pastorais…, você se vê na defensiva? É capaz de olhar com simpatia e empatia a sociedade que o cerca e ver nela os sinais do Reino? Que implicações tem o batismo na sua vivência cristã?

 

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

 

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