As três grandes missões dos batizados e o papel da comunidade

Em 2023, a Festa do Batismo do Senhor, uma data móvel, é celebrada em 9 de janeiro. Normalmente, essa liturgia ocorre no domingo, mas, por variações do calendário litúrgico no Brasil, neste ano, cairá numa segunda-feira. Com ela, encerra-se o Ciclo do Natal. No dia seguinte, começa o Tempo Comum (eis uma dica para quem quer saber quando guardar a árvore de Natal e o presépio).

Como ocorre com datas importantes da Igreja, sobretudo as que comemoram eventos da vida de Jesus, os ritos são belíssimos. Em muitas comunidades mundo afora, o povo costuma ser aspergido com água benta, e crianças são batizadas.

Considero a celebração do batismo uma obra de arte. Se conduzida com o devido esmero, mergulhamos bem na beleza de muitas das bases de nossa fé, na graça de um Deus a nos tocar e a nos confiar algumas nobilíssimas incumbências, visto que somos configurados a quem veio para servir (cf. Marcos 10,45).

Eu gostaria de destacar a unção com o crisma, feita logo após o banho na água sagrada. O gesto sinaliza três preciosas missões a emanarem de Jesus: “Que Ele (Deus Pai) as consagre com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”, diz um trecho da prece recitada nessa hora. Eu gostaria, portanto, de sublinhar, de modo resumido, cada um desses três pontos.

1. Sacerdotes em Cristo

Todos os batizados, batizadas, porquanto “enxertados” no Mestre, ganham a dignidade do chamado sacerdócio comum dos fiéis, este que nos une a todos: leigos, ordenados ou consagrados. Pela vocação batismal, somos igualmente filhos e filhas de Deus, mesmo com diferentes responsabilidades. Em Jesus, podemos nos ofertar ao Pai, à Igreja, orar em favor do próximo, assumir o Templo-Cristo. No Senhor, não há mais o véu a nos separar (cf. Marcos 15,38), pelo qual passavam apenas alguns “privilegiados”.

2. Profetas em Cristo

As palavras “profeta” e “profecia” andam muito mal-usadas, inclusive entre os cristãos católicos. O termo significa “porta-voz”. O profeta, a profetisa não age ou fala por si, mas como Deus deseja. Exercer a profecia, por atos e palavras, costuma dar trabalho. Muitas vezes, percorrer nos caminhos de Deus significa andar na contramão de várias coisas do mundo, sendo um “incômodo” para os injustos e perseguidores. O profeta anuncia o reinado do Senhor, por ser sábio, sabe falar e se calar na hora certa, também busca antes ouvir e falar com Deus, pede ao Mestre coragem para denunciar as trevas que apequenam o ser humano.

3. Reis em Cristo

A terceira missão dos recém-admitidos ao Corpo de Cristo é a de reinar, mas não em trono dourado, e sim na cruz, tal como o Senhor. Os batizados e as batizadas precisam ser os reis, as rainhas do serviço. Esse é o motivo pelo qual os cristãos devem, sim, construir uma sociedade melhor, cuidar do ser humano, da natureza, devem colaborar para uma Igreja melhor, para ela ser, de fato, um sacramento de Deus para o mundo, como deseja o Concílio Vaticano II. O reinado e a profecia em Cristo jogam por terra a famigerada ideia, defendida por opressores do povo e da natureza, de que a Igreja deve se preocupar apenas com temas de sacristia.

Apoio da comunidade

Como esperar tarefas tão grandiosas de um neófito (palavra de origem grega cujo sentido é “brotinho”)? A própria liturgia batismal dá essa resposta. Ao longo da celebração, pais, padrinhos e outras pessoas são convocados a ajudar os pequenos a crescer na fé, pela observância dos mandamentos e pelo exemplo de vida na Igreja, a família dos seguidores de Jesus.

As crianças aprenderão a ser sacerdotes, profetas e reis pelo testemunho dos outros batizados e batizadas. Reforço: estes, solenemente, prometem ser uma comunidade de fé e de amor para os recém-chegados, renunciam ao pecado, a tudo o que causa desunião, ao próprio demônio. Como todos nós perdemos quando essas promessas se tornam apenas palavras soltas, ditas no “piloto automático” ou sem a mínima consciência!

O dia do mergulho em Cristo não é uma formatura, mas o início de uma caminhada sem fim. Essa liturgia é uma ótima oportunidade de conversão para os já iniciados. Humildes e frágeis, as crianças, a seu modo, nos questionam sobre como assumimos nosso estado indelével de verdadeiros filhos e filhas de Deus.

Volto ao próprio ritual, desta vez a um doce, mas exigente trecho do rito da luz: “Queridas crianças, vocês foram iluminadas por Cristo para se tornarem luz do mundo. Com a ajuda de seus pais e padrinhos (e de todo o povo, eu acrescentaria), caminhem como filhos e filhas da luz”.

Alessandro Faleiro Marques

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