Avós: presente na vida dos netos

Celebrar o Dia dos Avós é também refletir e reconhecer o papel que exercem na vida das famílias e da sociedade como um todo. Já se foi o tempo em que os avós eram retratados como velhinhos sentados numa cadeira de balanço. Hoje são muito mais ativos e independentes que no passado e, para muitas famílias, representam a única fonte regular de entrada de renda, devido ao desemprego e ao trabalho informal.

Isso se dá devido ao aumento da expectativa de vida que, de 1980 até 2018, subiu de 65,7 para 79,4 anos para as mulheres e de 59,6 para 72,5 anos para os homens. Também a qualidade de vida dos idosos melhorou graças a exercícios físicos e ao avanço da medicina.

Se, de um lado, as pessoas vivem mais, por outro, os jovens estão demorando mais para sair da casa dos pais. Isso aumenta o número de idosos que sustentam os filhos e ajudam os netos, não apenas dando presentes, mas se tornando cada vez mais presentes em suas vidas e, em muitos casos, até suprindo a ausência dos pais e garantindo-lhes o sustento.

Para confirmar essa realidade, trazemos a história de duas avós que assumiram os netos por diferentes motivos, mas lhes deram a presença de mãe, cuidando, acompanhando e suprindo todas as suas necessidades.

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“Eles me chamam de vó, mas a imagem que eles têm é de mãe.”

Neyde Mosca Grecco, 87 anos, mora no bairro do Brooklin, em São Paulo-SP, e é bisavó e mãe ao mesmo tempo. Teve uma única filha, que faleceu com 42 anos, deixando três filhos na idade de 15, 13 e 9 anos. Então assumiu os netos e cuidou deles em todos os sentidos. “Eles me chamam de vó, mas a imagem que eles têm é de mãe”, conta com satisfação.

Os netos cresceram e também tiveram filhos e, sempre que necessitam, apelam à avó para ajudar a cuidar das crianças, o que ela faz com muita alegria. Com uma saúde invejável para sua idade, Neyde dirige, leva as crianças à escola, ensina a lição de casa, dá almoço e tudo o que for necessário.

São cinco bisnetos, mas, para uma das crianças, Neyde precisou ser pai e mãe. Quando uma das netas se tornou dependente química e engravidou sem as mínimas condições de cuidar da filha, ela não teve dúvida e assumiu a menina até os 8 anos de idade, quando esta foi morar com a tia.

“Cuidar dos netos e bisnetos não é um sacrifício, mas uma missão”, declara Neyde. Ela conta que cuidou de sua mãe, do pai e da sogra. Também tomou conta do marido, que ficou dependente três anos antes de falecer. Atualmente, “continuando a missão que Deus mandou para mim”, segundo suas palavras, está dando atenção à empregada doente, que trabalhou com ela durante 44 anos e a ajudou no cuidado de toda a família.

Neyde com seu neto e bisnetos

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“Eles não me largam e eu também não largo.”

Outro exemplo de avó-mãe é Maria Virgem das Dores de Melo Farias, de 68 anos e que mora no bairro da Cohab Adventista, na periferia de São Paulo-SP. Maria tem três filhos e sete netos, dos quais cuida de quatro desde quando nasceram. “Não queria assim, mas o amor é mais do que tudo”, conta.

A primeira neta que assumiu está agora com 11 anos. A menina a chama de mãe e o avô, de pai. Maria conta que seu filho e a mulher já tinham uma criança e estavam em condições muito difíceis, sem a mínima estrutura para cuidar da recém-nascida. Eles somente não ficaram na rua porque o pai pagava o aluguel deles. Depois os dois se separaram, e a menina continuou com os avós.

Os outros três netos, de 10, 9 e 4 anos são de sua filha que é mãe solteira e vive com ela, mas não assume as crianças. Maria relata que sofreu muito com a filha sem juízo, que ia às baladas, engravidava e não sabia quem era o pai. A idosa e o marido tiveram de cuidar de tudo, desde levar à escola, dar roupa, comida e tudo mais.

“Eu me sinto avó-mãe… É muita responsabilidade, porque aqui é tudo comigo e meu marido”, desabafa. Maria adora as crianças e está feliz com os netos. “Eles não me largam, e eu também não largo”, diz abraçando as crianças. Sobre o que acha da avó, a neta mais velha responde: “Ótima avó, ótima mãe; cuida e dá tudo de bom”, depois acrescentou: “O coração vai ter que aguentar!”. Com apenas 11 anos, ela entende a situação e sabe que ela e seus primos-irmãos necessitam da avó como mãe que eles realmente têm e, apesar da idade, a avó vai precisar aguentar firme.

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Direitos, carinho e respeito

Embora o ideal seja que os pais cuidem de seus filhos e os avós possam gozar de uma vida mais tranquila e sem tantas responsabilidades, as situações da vida muitas vezes levam a uma inversão de papéis. Ainda mais em situações de crise como a atual, a colaboração das pessoas idosas na manutenção do orçamento familiar, especialmente entre as famílias de baixa renda, com frequência é o que salva a família da desestruturação.

Seja em qualquer situação, os e as avós merecem todo o carinho e respeito pelo que são, por tudo o que se doaram e continuam se doando, por sua presença que ajuda a unir a família e a enfrentar os desafios, partilhando sua sabedoria e experiência de vida. Merecem nossa gratidão, mas também precisam de nossa atenção e cuidado.

No Brasil, o número de idosos vem aumentando, o que demanda políticas públicas que levem em consideração suas necessidades e garantam seus direitos. Com a reforma da Previdência, por mais que seja considerada necessária, haverá uma redução do valor real das aposentadorias, o que influirá negativamente na qualidade de vida dos idosos e no empobrecimento das famílias, especialmente nas pequenas cidades, onde são os idosos que movimentam a economia local.

Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpS
Jornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)