“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)
Celebramos hoje o verdadeiro nascimento de Jesus. Ele mesmo nos disse que o “nascimento pela água e pelo Espírito” era o mais importante.
Jesus, já um homem adulto, aproxima-se de João Batista para ser batizado por este profeta, a quem seguramente o escutara atentamente. Provavelmente, a pregação daquele homem de aparência excêntrica tinha provocado já “algo” no mundo interno de Jesus. Quem sabe, aquelas palavras enérgicas que João gritava com força, junto ao rio Jordão, anunciando a iminente chegada do Messias e a exigência de conversão, tenha lhe despertado uma vibração, desde o mais fundo de seu coração.
Conduzido pela mão do Pai, saiu Jesus de Nazaré e foi batizar-se junto com todos os pecadores e pecadoras de seu tempo, que acudiam a receber o banho regenerador do batismo de João.
Por isso se situou na fila dos pecadores, sem julgar ninguém e sem medo de sua própria humanidade. Assim se mostrou ao mundo e assim reconheceu sua própria vocação de entrega.
Mas Jesus, imediatamente após descer às águas do Jordão, sai do rio, passa da água como lugar da morte à água como símbolo da vida, como no Êxodo de Israel, antecipando sua Páscoa, sua “passagem” da morte à sua gloriosa ressurreição e sua ascensão ao Pai.
O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que transformou sua vida: ali tomou consciência de ser o Filho amado do Pai, o Messias esperado por gerações. Por isso, depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano.
O que transformou a trajetória de Jesus não foram as palavras que escutou dos lábios do Batista, nem mesmo o rito de purificação do batismo. Jesus viveu algo mais profundo; sentiu-se inundado pelo Espírito do Pai, aquele mesmo Espírito que pairava sobre as águas no início da Criação. Jesus reconheceu a si mesmo como Filho de Deus. De agora em diante, sua vida consistirá em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai, providente e cuidadoso.
Ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Deus que o chama “Filho amado”, Jesus descobriu, para si e para todos, o eixo do equilíbrio emocional, mental, espiritual. O amor que experimentou na descida ao Jordão se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.
Cessou o tempo da espera, abriu-se o céu, escutou-se uma voz. E o Homem Jesus, equilibrado pelo Amor que experimentou em seu interior, começou a transformar as mentes e corações desequilibrados por falsas religiosidades que geram temor e submissão.
O batismo e as tentações de Jesus falam da profunda transformação que provocou nele uma experiência que se prolongará durante anos. Duas cenas decisivas que confirmam sua filiação divina e o que Ele devia ser para os demais. Descobriu o sentido de sua vida.
No brevíssimo diálogo entre Jesus e João Batista, Mateus expressa que Jesus rompe todos os esquemas do messianismo judaico. Não é o fato de batizar a Jesus que o Batista custa aceitar, mas o significado de seu batismo, que desloca a ideia do Deus como “juiz poderoso”, que João manifestava em suas pregações.
Só depois de ser batizado, a partir de sua própria experiência interior, Jesus vai além da mensagem de João e começa a pregar sua própria mensagem, na qual a ideia de Messias e de Deus que o Batista havia pregado fica notavelmente superada.
Tudo isso preparou Jesus para uma experiência única. Os céus se abriram e Ele viu claro que o Pai o confirmava como Filho e o que esperava dele.
Jesus não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus. Falar que Jesus fez um ato de humildade ao colocar-se na fila dos pecadores, embora não tivesse pecados, é pensar em um ato teatral que não tem nada a ver com a personalidade de Jesus.
Muitas vezes, nós nos aproximamos do relato do batismo com certos pré-juízos. O primeiro, é esquecer-nos de que Jesus era plenamente humano e precisou ir aclarando suas ideias e discernindo sua missão.
Em segundo lugar, o conceito de pecado e conversão não tem nada a ver com o que até então era compreendido. Entendemos a conversão como um sair de uma situação de pecado. O que é narrado no batismo é uma “autêntica conversão de Jesus”, e isso não tem que supor uma situação de pecado, mas uma tomada de consciência daquilo que significa para um ser humano alcançar a plenitude de uma meta, ainda não conseguida.
Muitos dos estudiosos da Bíblia se perguntam se Jesus tinha neste momento de sua vida uma consciência plena de sua missão, ou se a foi descobrindo pouco a pouco, através dos mesmos acontecimentos históricos que seguiram, a partir dessa decisão.
Jesus, no batismo, ao receber o Espírito, é ungido, é consagrado para sua missão, é constituído Messias.
Jesus de Nazaré, a partir do batismo, é o Cristo, que significa o “Ungido”. A partir disso, compreende-se o sentido profundo da sua ida ao deserto, que Mateus narra como fruto da moção do Espírito.
Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos”…
Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração… um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia…
Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada…; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.
Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio… e “passar para a outra margem”.
Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si… Sair da margem conhecida, velha, rotineira… para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos…; lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais…
Talvez por isso, também nós não tenhamos reconhecido Cristo em nosso batismo. Porque O temos buscado em outras filas, em outros rios e com outros “joãos”. Falta-nos uma iluminação do céu para escutar a voz do Pai e reconhecer a Cristo detrás de nós, ou adiante, ou ao lado, como um de tantos.
Recolhamos o essencial do relato do Batismo no qual somos convidados a escutar, como Jesus, essa Voz que indica nossa raiz divina e nossa dignidade humana, nossa identidade de filhos e filhas, cuja consequência nos compromete a olhar os outros como irmãos e irmãs, na solidariedade incondicional, na igualdade enquanto dignidade, direitos e oportunidades.
O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência.
Só aqueles(as) que se submergem nas águas amorosas da graça, saem empoderados de Espírito e filiação. E vão descobrindo o lugar, a sua missão, a sua maneira original de viver o seguimento de Jesus.
Texto bíblico: Mt 3,13-17
Na oração: – oxalá, ao ler ou escutar o evangelho de hoje, sintamos uma sacudida interior e nos despertemos ao perceber que, em Jesus, todos fomos citados pelo Deus-Abbá: “Tu es meu(minha) filho(a) amado(a)”.
– Oxalá, o Espírito Santo nos ajude a compreender que somos filhos(as) amados(as), não servos(as); e que fomos salvos gratuitamente. Se descobrirmos que todo ser humano é filho(a) amado(a), terá acontecido um milagre.
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

