Bem-aventurada Maria Helena e Santa Teresinha do Menino Jesus: vidas apaixonadas pela missão de Deus

Estes dias, lendo a última Exortação Apostólica do Papa Francisco, “C’est la confiance” (em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/20231015-santateresa-delbambinogesu.html), publicada em 15 de outubro último, por ocasião do 150º aniversário do nascimento de Santa Teresinha do Menino Jesus, percebi algo semelhante entre essa santa francesa e a nossa querida Bem-aventurada Maria Helena Stollenwerk, que, em 28 de novembro de 2023, completará 171 anos de nascimento. Ambas vivenciaram uma profunda paixão pela missão de Deus, nos desafios cotidianos de suas vidas num convento, cada uma de seu jeito, em situações diferentes. Vejamos alguns correlatos: 

Elas são contemporâneas. Helena Stollenwerk tinha pouco mais de 20 anos que Thérèse Martin e faleceu três anos depois. Viveram em países e culturas diferentes, mas não muito longe uma da outra. Steyl (Holanda) fica mais ou menos 500 km distante de Lisieux (França). 

Ambas nasceram em lares profundamente cristãos, com vários filhos, sendo elas as mais novas. As estruturas familiares, contudo, eram diferentes. Helena tinha vários meios-irmãos mais velhos e com necessidades especiais, e uma irmã mais nova, enquanto Thérèse era a caçulinha da família. Eram muito queridas de seus pais e irmãos, e eram a alegria de seus lares.

Suas famílias eram de pequenos proprietários. Os Stollenwerk tinham uma propriedade rural e colocavam em Helena a esperança de continuidade. A família Martin, por sua vez, tinha uma confecção de rendas e bordados regionais. A mãe, Santa Zélia Martin, coordenava várias artesãs e fazia os acabamentos antes de encaminhá-los à venda. 

Helena despertou cedo para a fé e cresceu com um amor muito grande às missões, motivada pela leitura regular das revistas da Obra da Santa Infância. Sentia-se chamada a levar o amor de Deus às crianças da China que não conheciam Jesus.

Já Thérèse foi gestada numa família de espiritualidade carmelita, em que o amor a Deus era buscado e vivido na concretude do dia a dia. Na pequena infância, fez uma forte experiência do amor de Deus e, aos 15 anos, com licença papal, ingressou no Carmelo de Lisieux, onde já estavam três de suas quatro irmãs. 

Helena entrou em Steyl com o dobro da idade de Thérèse, convicta de que tinha encontrado seu lugar, na esperança ainda de uma congregação missionária feminina a ser fundada. Ela testemunha: “Eu estava tão feliz como nunca antes, acredito. Sentia mesmo que aqui era o lugar certo, ou que, pelo menos, a finalidade e a missão desta Congregação eram conforme aquilo que eu acreditava ser o que Deus queria de mim. Só podia agradecer a Deus e oferecer-me em sacrifício a Ele”.

Um longo processo de sete anos de espera para a fundação do ramo feminino foi amadurecendo a vocação de Helena. Na monotonia de serviços domésticos humildes, foi descobrindo a profundidade do “ser missionário”, que é o motor de qualquer agir missionário. Nesse tempo, assim escreve: “Minha vida, de agora em diante, deve ser uma vida de amor e gratidão. Se outros podem realizar muito na sua vocação para o bem geral, meu destino é arder no amor de Deus, permanecer na oração e viver uma vida pobre e humilde”.

Thérèse, no nome que escolheu como religiosa, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, expressa o mistério da Encarnação e o rosto de Cristo que se dá até o fim na Cruz. Em sua cela, gravara estas palavras: “Jesus é meu único amor”. Contudo, esse autêntico encontro com Cristo, que sempre nos abre a uma missão, foi despertando nela uma alma missionária. Escreve que entrara no Carmelo “para salvar almas”, o mesmo desejo de Helena: “salvar as crianças chinesas”.

Em sua experiência mística, deixou-se levar confiantemente por Deus e foi descobrindo o “doce caminho do amor” aberto por Jesus aos pequeninos e aos pobres, a todos. Thérèse assim realçou o primado de Deus, de sua graça, diferentemente da ascética individualista e elitista, própria da espiritualidade de seu tempo, que punha o acento no esforço humano. Ela assim nos convidou à vivência da confiança e do abandono total a Deus.

Esse mesmo abandono impregnou a vida de Helena durante os sete anos de espera e a fez experimentar uma profunda alegria quando, finalmente, o Fundador Santo Arnaldo Janssen, começou a dar os primeiros passos para a fundação do novo instituto, com a mudança das jovens para o “Convento das Três Tílias”: “Eu não sou capaz de descrever como nos alegramos, pois acreditamos e esperamos confiantes que, em breve, chegaremos à meta de nossos desejos”.

Lendo o Hino da Caridade, no capítulo 13 da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, Thérèse descobriu: 

A caridade deu-me a chave da minha vocação. […] Compreendi que a Igreja tinha um coração e que esse coração estava ardendo de amor. Compreendi que só o amor fazia agir os membros da Igreja. […] Compreendi que o amor encerra todas as vocações, que o amor é tudo, que abarca todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, é eterno. […] Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, minha Mãe, eu serei o amor!

Thérèse revelou, assim, o coração de uma Igreja amante, humilde e misericordiosa. Na realização de sua vocação missionária, também Maria Helena foi essencial: ela percebeu que vivia de modo muito semelhante a muitas missionárias, passando sempre por situações novas, imprevistas, buscando caminhos novos, sempre em saída, chegando a ceder seu quarto e sua cama para as retirantes. Nesse mesmo espírito de despojamento, foi formando as futuras missionárias, que iriam um dia, em seu lugar, para os almejados campos missionários no exterior. 

Sua entrega foi total: ofereceu seu próprio desejo e ideal missionário, como Abraão que não negou oferecer seu filho Isaac. 

A vida terrena de Thérèse foi breve e aparentemente insignificante. Quando morreu, as irmãs não sabiam muito o que escrever sobre ela, mas a extraordinária irradiação de luz e amor que a publicação de seus escritos provocou, bem com como as inúmeras graças obtidas pelos fiéis que a invocavam (a chuva de rosas que tanto profetizou) tornaram-na uma das santas mais apreciadas e invocadas nos tempos modernos. 

Na sequência, vários Papas perceberam e proclamaram a grandeza e a novidade de seu breve testemunho de vida, beatificando-a (1921) e canonizando-a (1925), num prazo relativamente curto, tornando-a sucessivamente “Padroeira das Missões” (1927), uma das padroeiras da França (1944) e “Doutora da Igreja” (1997). Por fim, como nos lembra a Exortação Apostólica a seu respeito, ela foi também reconhecida pela UNESCO entre as figuras mais significativas para a humanidade contemporânea, amada até por não cristãos e não crentes.

A vida de Maria Helena, no fim de sua caminhada, foi também a expressão de sua total dedicação à obra missionária que ela abraçava quando jovem. Faleceu aos 47 anos de idade. Queria ver realizada a doação do próprio ser pelas irmãs que acompanhava e conviviam com ela, seja como coordenadora e formadora ou, mais tarde, como simples noviça no novo ramo feminino de vida religiosa contemplativa que Santo Arnaldo fundou, em 1896, a Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua. 

Quando Santo Arnaldo consultou as irmãs sobre a inclinação ou não de passar para o novo ramo contemplativo, Maria Helena manifestou seu apelo e se colocou à disposição. De fato, ela vinha crescendo na vida de oração e sentia-se chamada para esse estilo de vida religiosa. Mas não foi escolhida naquele momento. Mais tarde, com o propósito de aproximar e relacionar melhor os dois ramos femininos, Santo Arnaldo pediu então a Maria Helena a sua transferência para o novo ramo, e ela, em espírito de obediência, aceitou. 

Nessa disposição de fazer de sua vida uma entrega total à vontade de Deus, Maria Helena faleceu como noviça da recém-fundada congregação de vida contemplativa, tornando-se pão repartido para a vida da obra missionária de Steyl. 

Madre Maria Helena começou servindo a Sociedade do Verbo Divino, como empregada. Em seguida, foi missionária serva do Espírito Santo, liderando a jovem congregação sob a orientação de Santo Arnaldo, e, por fim, entregou-se a Deus como noviça das servas do Espírito Santo da adoração perpétua. Hoje ela pertence às três congregações religiosas da Família Arnaldina. 

Em 7 de maio de 1995, foi beatificada em Roma, sendo a primeira missionária serva do Espírito Santo proclamada bem-aventurada. Em 2008, no dia 29 de junho, Madre Josefa Stenmanns, sua companheira como cofundadora da Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo, foi também elevada aos altares como bem-aventurada. Hoje ambas são veneradas por milhares de irmãs, leigos e clérigos pelos cinco continentes onde a Família Arnaldina se faz presente. 

Helena Stollenwerk, nossa Madre Maria, e Thérèse Martin, chamada carinhosamente de Santa Teresinha do Menino Jesus aqui no Brasil, buscaram, desde crianças, a proximidade de Deus e, por caminhos diferentes, vivenciaram a vocação missionária na solicitude dos afazeres diários, com muito amor e muita entrega e abandono. Não chamaram atenção sobre si, mas sua interioridade extravasou e irradiou, até hoje, entre nós, com abundantes graças e ensinamentos. 

Santa Teresinha e Bem-aventurada Maria Helena, rogai por nós e cuidai de nós!

Irmã Maria Inês Aragão

Missionária serva do Espírito Santo, coordenadora da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte da SSpS.

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