“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”: o que diz um teólogo sobre essa ideia?

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” Seja no perfil dos usuários das redes sociais, seja em outros espaços do campo virtual ou real, tornou-se comum depararmos com essas expressões que evocam o patriotismo e o divino, campos que o candidato do PSL tem privilegiado em sua campanha. Devemos sempre recordar que “as palavras não são inocentes”. Precisaríamos, portanto, questionar quais forças estão atuando em palavras enunciadas, especialmente quando o que se está em jogo são as instituições mais importantes do nosso sistema de governo.

Como o slogan bolsonariano toca em algo próprio da Teologia, pensamos em dar a voz e a vez para alguém que se dedica a estudar a relação entre Deus e os humanos. Padre Gegê, mestre em Teologia pela PUC do Rio de Janeiro e doutorando em Ciência da Religião pela PUC de São Paulo, aponta duas leituras possíveis sobre a segunda expressão do slogan. Em suas palavras: “Baseado na Bíblia, podemos, sim, falar de um ‘Deus acima de todos’, enquanto Altíssimo ou que ‘habita em luz inacessível’, etc. Contudo também podemos falar do ‘Deus acima de todos’, como um ‘deus’ de coturno (a imagem e semelhança do suposto crente), que serve como sinistro álibi para justificar as mais escabrosas atrocidades (físicas e simbólicas)”.

De acordo com o teólogo, é fundamental sabermos que imagem temos de Deus: é um Deus que desejamos servir ou é um Deus que manipulamos para usar a nosso serviço e conveniência? “Temos de discernir constantemente para que nosso Deus não seja Aquele de realidades humanas sacralizadas”, confirma Pedro Trigo, jesuíta espanhol.

Padre Gegê ainda traz um argumento fundamental. Ele salienta que “o Deus revelado por Jesus não se mostrou ‘acima’, mas ‘conosco’ (= Emanuel). E, como se não bastasse, o Deus de Jesus se fez abaixo de todos e todas. Tomou o último lugar”. Na carta de São Paulo aos Filipenses, o apóstolo lembra que Jesus, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus um privilégio, mas esvaziou-se de si mesmo, tornando-se igual aos homens. “Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,7b-8).

Com base nessa chave interpretativa e dos muitos exemplos da ação de Jesus narrada nos Evangelhos, o lugar privilegiado que o candidato do PSL oferece a Deus não é o lugar onde o próprio Deus revelado quis ocupar. Ele preferiu descer, promover a vida e a dignidade humana entre nós, sempre renegando veementemente a posição de estar acima.

Irmã Stela Martins, SSpS – Graduanda em Ciências Sociais (PUC Rio) e membro da Diretoria da Redes – Rede de Solidariedade

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