“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó” (Jo 4,6)
Como em tantas outras ocasiões, o evangelho deste domingo nos situa diante de um Jesus imprevisível e surpreendente, capaz de vencer a estreiteza das nossas expectativas, quando nos encontramos com Ele.
Os evangelistas se encarregam de destacar a presença do excesso e do esbanjamento que acompanham as atuações de Jesus, ultrapassando sempre aquilo que se esperava dele: nem os noivos de Caná precisavam de tanto vinho, nem os discípulos precisavam de uma pesca tão abundante que quase arrebentasse as redes; e, para sustentar as forças da multidão que o tinha seguido ao deserto, bastava um bocado de pão e peixe e, no entanto, sobraram doze cestos; o paralítico que desejava simplesmente voltar a andar não esperava voltar à casa livre da carga de seus pecados; Zaqueu, interessado somente em querer ver Jesus de longe, acaba vivendo um encontro inesperado com Ele em sua casa e partilhando sua mesa; as mulheres que só pretendiam que alguém rolasse a pedra do sepulcro para embalsamar um cadáver tiveram a grata surpresa de se encontrarem com o Vivente.
Sempre o mesmo esbanjamento da parte de Jesus, e sempre a mesma resistência de muitos quando se tratava de alargar o coração e a vida à hora de adentrar-se no imprevisível que os transbordava. Quem se contenta com vida atrofiada e estreita não pode entrar na dinâmica transbordante da Vida de Jesus. Esse “excesso de vida” também transparece no encontro de Jesus com a samaritana, à beira do poço. No início, ela se mostra cética e reticente frente à promessa da água transbordante que a movia ir além de suas previsões.
No evangelho deste domingo, o relato de João nos apresenta uma catequese longa e preciosa, na qual todos os detalhes são significativos. Aproximemo-nos da experiência que ele nos narra, deixando que “ressoe” em nós e desperte (reavive) nossas próprias experiências.
Encontramo-nos, em primeiro lugar, com a experiência de uma mulher, a samaritana: uma mulher anônima, que vivia sob o fardo de uma vida rotineira, de insatisfação e de busca. Sua vida estava ocupada, enredada em tarefas cotidianas, muitas delas pesadas e repetitivas, como tirar a água necessária para a vida da família, todos os dias, debaixo de um sol escaldante, penosamente… Experiência que ela vivia como algo “fechado”, determinado, não escolhido…; o que ela mais desejava era poder sair dessa situação. Por isso, depois das primeiras palavras de Jesus, o que ela expressou foi um desejo de livrar-se desta tarefa: “Dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
Não é esta também, de alguma forma, nossa experiência? Quantos de nós temos experimentado e sentido alguma vez em nossa vida que são justamente as tarefas rotineiras, as atividades que não podemos deixar de fazer, aquelas que mais nos impedem viver com intensidade, inclusive nossa fé? Alimentamos sempre o desejo de que, em meio a essa rotina, nossa vida possa dar um salto de qualidade, ser mais criativa, mais ousada e com mais “sabor”, para além das tarefas e circunstâncias.
Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo mesmo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude. De que temos sede? Onde buscamos saciar nossa sede?
É meio-dia; há sombra profunda no poço junto ao Garizin. Uma mulher coloca seu cântaro junto à boca do poço. Certamente, ela desejaria livrar-se do próprio cansaço, do peso do dia, do vazio que percebe dentro de si mesma; ela chega ao poço não porque tenha sido informada de que nesse lugar se encontra o famoso rabi da Galileia, mas porque precisa tirar água.
É inspirador esse encontro junto a um poço. Tem o sabor do cotidiano. Não há nada programado; não se percebe vestígio algum de esquema de ação “pastoral” preestabelecido. Há aqui algo tão refrescante como a água que se encontra a quarenta metros de profundidade.
Percebe-se inclusive a agradável sensação da improvisação. Tudo acontece de maneira espontânea, com a marca do ocasional e surpreendente, sem que haja necessidade de seguir um roteiro pré-fabricado. Jesus se detém não porque espere converter alguém, mas porque está cansado, sente calor, tem fome e sofre o tormento da sede.
Jesus não vacila à hora de destruir as barreiras, de romper os esquemas, de não mostrar apreço algum pelas convenções, de fazer saltar pelos ares os pré-juízos. Parece muita ousadia, imprópria para um rabi, interpelar uma mulher junto a um poço, discutir teologia com ela, responder a suas perguntas.
Jesus, mestre de liberdade, desobedece sem problemas de consciência a essas regras discriminatórias codificadas durante séculos. Transgride as proibições impostas pelos fanatismos. É próprio seu um comportamento escandaloso para a mentalidade da época.
Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó deixam transparecer uma dimensão presente em todos nós: na essência, “somos eternos buscadores de poços”, ansiamos por uma vida mais profunda, desejamos escavar nossa interioridade até encontrar a fonte de água viva…
No relato de João, Jesus apresenta-se, ao mesmo tempo, como sede e como água. À samaritana, a quem pede de beber, Jesus se revela como Água Viva, a única capaz de saciar todas as sedes. E, quando sede e água se encontram, acontece a salvação.
O encontro se inicia com uma petição de Jesus que requer uma atitude de solidariedade no nível humano mais elementar, para além de todas as barreiras culturais e religiosas, que costumam separar pessoas.
Oferecer água, elemento escasso naquelas terras áridas, torna-se precioso gesto de acolhida e hospitalidade.
Jesus não vacila em pedir, em fazer-se pobre, deixando de lado a tradicional superioridade dos judeus em sua relação com os samaritanos. Situa-se numa atitude de dependência, reconhece que tem necessidade da ajuda de outra pessoa. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.”
A conversação transita penosamente entre as resistências, a desconfiança e os hábeis “dribles” da mulher. Desde o primeiro momento, a samaritana intui que aquele encontro pode tornar-se “perigoso”. Este homem não é como os demais, pois pretende levá-la aonde ela não queria ir. Faz de tudo para escapar dele; desvia-se astutamente da iniciativa de Jesus. Busca levar a conversa para argumentos que não sejam muito comprometedores. Aplica-se a fugir da verdadeira questão.
De forma repentina, os papéis se invertem; o forasteiro que antes pedia agora se torna oferente: deixa de ser o mendigo que pede e se revela como aquele que oferece, aquele que faz alusão a um dom misterioso, a um segredo cuja chave só ele possui. É como se Jesus implorasse: “Pede-me de beber…”.
A conversa se amplia; continua-se falando de água, mas a impressão é de que não se trata mais da água do poço diante deles. O forasteiro se refere a uma fonte que nada tem a ver com o poço de Jacó. Menciona o tema da sede e, contudo, essa sede é diferente. Utiliza as palavras que todos usam, mas a mulher tem a impressão de que aquelas palavras adquirem um conteúdo que se revela desconhecido. Descobre dentro dela o “manancial” que poderia “matar” sua sede.
Entre os protagonistas do encontro está também presente o cântaro. A mulher o deixa na beira do poço e corre à cidade para informar a seus concidadãos sobre o encontro que teve lugar e de que uma experiência assim também é possível para eles.
A Samaritana não tem pretensão alguma de atrair a atenção sobre sua própria pessoa, de mendigar reconhecimento. Não busca brilhar com luz própria.
A partir do momento em que o personagem principal ocupa o centro da cena, ela pode sair de cena, sem interferir na experiência dos outros.
Texto bíblico: Jo 4,5-42
Na oração: para Simone Weil, não é o nosso desejo que alcança Deus: se permanecermos sedentos e desejosos, é o próprio Deus que desce à nossa humanidade para encher de plenitude o nosso desejo.
– Numa atitude de atenção e vigilância, deixe que o Senhor escave um poço no seu interior, um poço que se converterá em manancial inextinguível de água viva. A fonte está dentro de você e se constitui como princípio interior de conhecimento, amor, fecundidade, confiança…
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: ícone de Jesus e da mulher samaritana na Igreja de Santos Nereu e Aquiles, em Milão (Itália) (Istock).

