“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)
Certamente, todos nós já passamos por experiências de decepção na vida. Sabemos que, muitas vezes, as pessoas que mais amamos são aquelas que nos decepcionam. O grau de decepção é diretamente proporcional às pessoas mais próximas; quanto mais afeiçoadas a elas, maior é a decepção. Aquelas que não amamos, ou quase não as conhecemos, não nos decepcionam tanto. Decepcionam-nos aquelas de quem esperamos algo.
Podemos recordar quantas pessoas que nos decepcionaram em nossa vida…, ou aquelas que decepcionamos.
Também nós nos decepcionamos a nós mesmos. Acreditávamos que daríamos conta de propósitos feitos e não chegamos a cumpri-los. Não se trata só de coisas grandes… Coisas pequenas são decepções de cada dia.
Cada ano, no Tempo Pascal, nos encontramos com um texto de decepcionados: relato dos “discípulos de Emaús”. Dois discípulos que queriam muito a Jesus, que estiveram a seu lado, e que, decepcionados, vão embora do grupo dos discípulos. Não suportaram estar decepcionados e continuar como discípulos.
Aqueles discípulos conviveram com Jesus durante três anos; alimentaram expectativas pessoais e não entenderam bem qual era a proposta d’Ele. Por isso, ficaram decepcionados diante da trágica morte e do fracasso da missão do mesmo Jesus. Procuraram sair de cena, desiludidos com o que lhes parecia ser o desfecho de uma história, a mesma que suscitara neles expectativas tão altas (“nós esperávamos…”).
Para eles, já não valia mais a pena seguir a quem os decepcionou. O melhor era afastar-se dele e viver a vida de acordo com aquilo que queriam. E foram embora, mergulhados na solidão, sozinhos, tristes e “discutindo” pelo caminho. Voltaram para a casa com sua decepção. Isolaram-se.
À luz do relato dos “discípulos de Emaús”, podemos afirmar que a decepção é pensar ou fazer uma ideia das possibilidades de alguém de quem se espera muito e a realidade acaba revelando o contrário.
A decepção atrofiou o olhar e não os deixava ver; travou a mente e não os deixava ter uma percepção mais ampliada; secou os sentimentos mais nobres e os mergulhou na tristeza. Ela os fez dar voltas sempre sobre o mesmo. “O que ides conversando pelo caminho?” E eles começaram a falar de sua decepção, do “chá de cadeira” (da propaganda enganosa) que Jesus lhes dera. “Ele não era como eles haviam pensado, imaginado.” E isso os afundou na tristeza, no fracasso e os fez “voltar para casa, deixando o projeto de viver com os amigos de Jesus”. Falavam, discutiam e voltavam a falar do mesmo. Davam voltas às coisas para dizer sempre o mesmo. Não entendiam Aquele que os decepcionou. Não era possível. Tentaram apagá-lo de sua existência e, por isso, se afastaram da comunidade dos seguidores d’Ele.
Para romper o círculo da conversa repetida e doentia, foi preciso que alguém os ajudasse, lhes explicasse, lhes abrisse os olhos, lhes fizesse unir o fato acontecido com as profecias, para poder sair de suas queixas estéreis. Foi preciso passar da memória mórbida, fracassada, triste… à memória sadia, redentora; foi preciso sair do “por que isso aconteceu?” e voltar-se ao “para que isso aconteceu?”. Foi preciso situá-los em outro horizonte, mais instigante e inspirador.
Assim fez o peregrino Ressuscitado junto aos dois discípulos que iam embora.
Qual é a boa-nova do evangelho deste domingo?
Que a decepção pode ser também o lugar de revelação, de encontro, de ver as coisas sob outra perspectiva, de dar-se conta de que tinha investido a vida em alguém segundo os próprios critérios. O caminho empreendido pela decepção, ou seja, o voltar para casa e deixar o grupo de seguidores é, em Emaús, o caminho onde o Ressuscitado também vem ao encontro deles e estabelece uma conversação carregada de afeto e ternura. Nada de julgamento, de acusação. A decepção para com o Mestre da Galileia foi a oportunidade de novo encontro com Ele.
No caminho da decepção é onde encontramos e nos encontramos com pessoas, com acontecimentos, com ocasiões para revisar nossa decepção. No caminho da decepção é onde Deus também sai ao encontro dos decepcionados. A decepção nos leva sempre, como os discípulos de Emaús, a descobrir que temos falsas ideias de Deus, de nós mesmos, dos outros, que construímos “imagens” segundo nossos critérios, que esperamos que tudo se cumpra segundo “o que nós imaginamos e cremos”.
E na decepção, como nas pequenas decepções de cada dia, Deus está nos convidando a ir mais além, a reconhecê-lo de verdade como Senhor, a tirar as capas que fazem com que o Deus em quem cremos seja uma construção nossa. Em Emaús, a maneira que o Ressuscitado encontrou para abrir os olhos dos discípulos foi fazer-se peregrino como um de tantos homens que vão pelo caminho e falar-lhes… Outras vezes Ele se deixa encontrar no silêncio, no grupo, ou numa conversação que alenta e aquece o coração.
Há um detalhe que não deveria passar desapercebido no relato deste domingo: enquanto os dois discípulos continuam falando e discutindo, o Ressuscitado se aproxima, gasta seu tempo, caminha a seu lado, guarda silêncio e escuta-os. E toda essa aproximação… para quê? Para pôr-se a caminho com eles. Chama a atenção que não haja outra intenção em Jesus. Não há uma pretensão oculta, pois não se trata de uma aproximação interesseira ou de uma estratégia pastoral. Simplesmente, se põe a caminhar, dando tempo para que surja, sem os violentar, o diálogo e a confidência.
Chama a atenção que não há recriminação da parte do Ressuscitado para com os discípulos que abandonam tudo num momento no qual se torna inconcebível crer no anúncio das mulheres, “enlouquecidas” de alegria diante do túmulo vazio do Nazareno. Jesus se põe a caminhar com eles sem se importar para onde vão, sem pretender mudar-lhes o rumo que tomaram, sem forçar a voltar para a comunidade.
A aproximação honesta que busca pôr-se a caminhar com o outro, sem se importar para onde vão, possibilita a criação de espaços nos quais se podem fazer as perguntas: “De que estais falando? Que aconteceu?”.
O silêncio e as perguntas do Ressuscitado lhe permitem não só escutar a narrativa dos acontecimentos ocorridos, mas, sobretudo, perceber as vivências que os dois de Emaús têm: decepção diante daquilo que foi prometido e não se realizou; frustração diante de expectativas não realizadas.
Por debaixo daquilo que é narrado, Jesus percebe o que foi vivido pelos dois discípulos. E sua resposta se situa justamente neste nível: o da vivência.
Os dois discípulos de Emaús não poderiam reconhecer o Senhor ressuscitado na “fração do pão” se antes não tivessem vivido atitudes para isso: acolhê-lo como companheiro de caminho, escutar sua Palavra e deixar que Ele abrisse seus olhos.
Depois que “seus olhos se abriram”, os discípulos passam da mais profunda tristeza e da mais radical decepção para uma alegria e um entusiasmo nunca antes experimentado.
Invadidos por uma imensa alegria, voltam para Jerusalém, sem pensar no cansaço nem na distância do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite.
Não fazem o “caminho da volta” arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida, mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.
A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.
Dito de outro modo: o encontro pessoal com o Senhor edifica a comunidade. O reencontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem os dois discípulos a realizar o caminho de volta para a comunidade e para a missão.
Texto bíblico: Lc 24,13-31
Na oração: busque, na oração, inspirar-se na aproximação do Ressuscitado para ativar sua capacidade de se colocar e caminhar ao lado de tantas pessoas tristes e frustradas que, como os dois de Emaús, também estão se afastando. Atuar dessa maneira supõe assumir riscos, ou seja, adentrar-se em seu terreno, em suas visões da vida, nas motivações que os movem. E aproximar-se não significa só um movimento de saída do lugar que proporciona segurança, senão que, sobretudo, implica a superação de pré-juízos, de imagens preconcebidas, de suspeitas…
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: CreativeNature_nl (Istock).

