Na Bula de proclamação do Ano Jubilar, o Papa Francisco escreve: “No coração de cada pessoa, encerra-se a esperança como desejo e expectativa do bem, apesar de não saber o que trará consigo o amanhã” (Spes non confundit, n. 1). O Papa, conhecedor dos anseios humanos e dos desafios que o tempo atual traz, recorre à Carta de São Paulo aos Romanos, frisando o horizonte que Paulo imprime à comunidade de Roma para se manter firme na fé e no seguimento de Cristo ante as dificuldades.
Nomeadamente, no ano em que os cristãos católicos celebramos 2025 anos do nascimento do Senhor, o Papa chama os católicos (e não só) a reacenderem a esperança no Senhor. Esperança muitas vezes abanada pelos atuais conflitos bélicos, as imigrações de pessoas e povos, os cada vez mais agressivos fenômenos naturais, os avanços tecnológicos que, quando mal utilizados, podem ser armas para disseminar o mal e outros tantos desafios. O cenário hoje parece mais assustador do que o da comunidade dos romanos, entretanto as tribulações, em cada contexto, são devastadoras, o que pode facilmente minar a esperança dos cristãos.
No intuito de extrair maior proveito dessas iluminadoras palavras extraídas da Carta de São Paulo aos Romanos e propostas para guiar a Igreja no Ano Jubilar, neste breve escrito, aguço alguns pontos de reflexão na esperança de que o leitor, provido de meios, mergulhe na bondade de Deus e, desde a bondade, reaviva sua vocação e se comprometa com a edificação de um amanhã segundo o querer de Deus.
Desvendando a Carta aos Romanos
Há estudiosos que desconfiam que a carta seja de autoria de algum discípulo ou comunidade paulina, outros afirmam ser da autoria de Paulo. Por esse motivo, uns a identificam entre os anos 55 e 58 d.C., e outros, por volta dos anos 56 e 60 d.C. O destinatário, como o nome o diz, seria a comunidade cristã de Roma. O motivo da carta não é claro. Provavelmente a comunidade estava enfrentando algum conflito entre os membros, seja pela procedência étnica, religiosa ou por noções tergiversadas e concepções mal orientadas a respeito da fé e da crença cristã (Silva Filho; Silvano, 2025).
A estrutura segue o modelo tradicional das cartas paulinas:
- saudação (1,1);
- oração (1,7);
- agradecimento (1,8ss);
- conteúdo peculiar: a) a ira e a justiça divina (1,18-4,25); b) a salvação pela justificação da fé (5,1-8,39); c) Israel no plano de Deus (9,1-11,36); d) a exortação à situação de Roma (12,1-15,13);
- conclusão com a saudação final (15,14-16,27).
Uma carta diferente
À primeira vista, a Carta aos Romanos parece um escrito impessoal, uma vez que ela não está ornamentada com detalhes de problemas imediatos, como as outras cartas paulinas. Isso se deve ao fato de Paulo não ter estado na criação dessa comunidade, aliás, quando expressa o desejo de visitar essa Igreja, revela seu desconhecimento da grande Roma (cf. Atos dos Apóstolos 19,21; 23,11; Romanos 1,11).
Os problemas que provavelmente a comunidade de Roma enfrenta são mais de cunho teológico, pois, na carta, Paulo insiste no perigo dos desvios e compressões errôneas da fé cristã. O tema da justiça está especialmente presente nessa carta, porém se trata de uma justiça ancorada na misericórdia de Deus e não apenas em conceitos normativos.
Justificados pela graça
No capítulo 5, especialmente se destaca a alegria profunda de quem confia plenamente em Deus. De fato, pode-se criar leis excelentes e instituições eficazes que vigiem pelo bom funcionamento de ditas leis, mas tudo isso não garante a harmonia, a paz e a felicidade dos seres humanos. Por outro lado, existem testemunhos de pessoas que, confiadas no Deus revelado por Jesus Cristo, vivem no espírito das bem-aventuranças. Esse relacionamento alicerçado na confiança em Deus, Paulo vai chamá-lo “justificação”: somos justificados pela graça divina que nos é dada por meio de Jesus (cf. Romanos 3,24).
Estamos celebrando 2025 anos do nascimento de Cristo, em quem Deus se aproxima de nós de forma tão humana e terna, mas ainda há pessoas com medo de Deus. As interpretações errôneas e distorcidas sobre Deus o situam num patamar inacessível ao comum das pessoas. Inclusive alguns acreditam que os pecados ou debilidades são barreiras intransponíveis, então optam por se resignar a uma vida sem Deus. Na comunidade dos romanos, não era muito diferente, por isso Paulo insiste em mostrar-lhes que tudo na vida é gratuidade e graça de Deus.
Introduzidos à presença de Deus
O termo que Paulo usa para expressar a “entrada” na presença de Deus é prosagoge. Esse termo pode ser compreendido por meio de duas figuras: (1) introdução, apresentação ou aproximação diante da realeza; e (2) enseada ou porto. Esses parecem termos simples, mas, por meio deles, Paulo profere a belíssima afirmação teológica: “Jesus nos conduz à presença do bom Deus, nosso porto seguro. É Cristo Jesus quem nos leva à presença amorosa de Deus Pai, e o que encontramos em Deus é graça sobre graça e não a temida condenação”. A experiência do encontro com o Deus da bondade infinita é certamente indizível e nem as tribulações conseguem extingui-la.
No meio da tribulação
Paulo escreve num tempo em que ser cristão em Roma era certamente muito difícil. As perseguições contra os cristãos começavam a eclodir. Internamente, a comunidade também enfrentava fortes tensões. É nessa realidade que Paulo lhes escreve, aconselhando-os a resguardar-se no Senhor. A palavra utilizada para tribulação é thlipsis, que significa literalmente pressão. As dificuldades, desentendimentos, enfermidades, privações e perseguições que estavam enfrentando eram de uma constante pressão. Paulo os encoraja, afirmando que, pela pressão, pode-se granjear a paciência.
A palavra que utiliza para paciência é hypomone, que significa resistir, vencer. Ou seja, a “paciência” é tudo o contrário ao espírito conformista, passivo, vitimista. Além do mais, Paulo acrescenta: a paciência “produz prova”. A palavra que utiliza para prova é dokimé, esta se relaciona com o processo que sofre o metal quando passado pelo fogo (acrisolar). Paulo termina assegurando que “a prova” “produz esperança”, e “a Esperança não decepciona”, porque está fundada no amor de Deus, e Deus não engana.
Oportunidades para crescer
Deus não nos manda tribulações para purificar-nos. Para Deus, já somos puros, porque fomos criados por ele em seu insondável amor. As tribulações, contudo, advindas das diversas circunstâncias, são oportunidades para crescer na fé e na confiança em Deus, nosso porto seguro.
O caminho que Paulo traça aos Romanos para seguir a Cristo com fé, paciência e esperança é o caminho que o Papa Francisco propôs a todos aqueles que guardam em seu coração o desejo de bem. Que, pela graça de Deus, sejamos revigorados na esperança que não engana.
Para saber mais
BÍBLIA: Tradução Ecumênica (TEB). São Paulo: Loyola, 1994.
BARCLAY, William. Romanos. [The Letter to the Romans]. Tradução de Carlos Biagini.
FRANCISCO, Papa. Spes non confundit: bula de proclamação do Jubileu Ordinário do Ano 2025. Cidade do Vaticano, 9 maio 2024. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/20240509_spes-non-confundit_bolla-giubileo2025.html. Acesso em: 20 ago. 2025.
SILVA FILHO, M. G. da; SILVANO, Z. A. (orgs.). Carta aos Romanos: a revelação da justiça de Deus. São Paulo: Paulinas; Paulus, 2025.
Missionária serva do Espírito Santo em Moçambique.

