Compaixão

Quero convidar você a olhar, por vários ângulos, a compaixão:

  • em você mesmo, mesma;
  • unido aos clamores que se levantam devido à injustiça, violência, vida ameaçada;
  • a partir do mistério da presença de Deus em você, em tudo (nele somos, movemo-nos e existimos);
  • a partir da consciência de que tudo está interconectado;
  • como um dom que nos foi entregue por Deus e que gera um compromisso em cada um de nós.

Compaixão vem de patire, “passar por algo com outra pessoa”, sentir com, ser atravessado pelo que acontece. Olhamos a compaixão na manifestação de Jesus Cristo ao mundo, revelação da presença do mistério que nos habita e em quem habitamos.

Contemplamos essa manifestação de Deus, Jesus Cristo, como o espelho para saber quem somos, para saber o sentido profundo da vida, dos valores, da compaixão.

Podemos contemplar o “sentir com” em Jesus? Que profundidade tem esse “sentir com”; que amplitude? Que intensidade? Como Jesus se deixa tocar pelas pessoas e as situações de seu tempo?

Em Jesus, manifesta-se um “sentir com” que emana de dentro dele e percebe a vida de uma maneira estranha para nossa forma comum de ver. Ele vê felizes os pobres, felizes os mansos, enquanto nós competimos e lutamos tanto; felizes os que choram, enquanto temos urgência de comprar a “felicidade” custe o que custar; vê felizes os pacíficos, os perseguidos por causa da justiça.

Um “sentir com”, de tal maneira, de tal forma, com tal intensidade que o leva até a morte violenta da cruz, e a maneira tão humilhante como é conduzido a essa morte foi um contínuo “sentir com”. Tendo amado os seus, amou-os até o fim. Sua resposta à violência não é a condenação, mas a compaixão: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. O que é essa compaixão então?

Jesus continua vivendo entre nós. Hoje temos testemunhos de vida que mantêm viva sua presença neste mundo. Muitos são desconhecidos e alguns conhecemos. Na Campanha da Fraternidade de 2020, foi apresentada a figura da Ir. Dulce. Ela acolhia os pobres e indesejados, os sem endereço da cidade de Salvador. Em seu peito, ardia a chama da compaixão. Os olhos iluminados de Dulce miravam também o invisível, o ser profundo nos pobres, nos indesejados.

Um Francisco de Assis, como será que ele “sentia com” a Natureza? Contam que ele pedia que a Natureza parasse de gritar sua grandeza, sua beleza, sua formosura. Tanto encanto na irmã Natureza, no irmão Sol, ultrapassavam-no. Ele se deixava tocar também pelo irmão leproso, irmão inimigo, irmão desconhecido.
De onde vem essa capacidade de sentir com os outros, sentir com as situações de injustiça, com a doença, com a vida como ela é? Qual seria o segredo de Jesus, da Ir. Dulce, de Francisco e de tantos que assim sentem com os outros? Como esse “sentir com” me atravessa?

No outro extremo dessas figuras, temos o mito de Narciso. Ele, ao ver-se refletido na água, ficou tão apaixonado por si mesmo que não conseguiu sair de si. Não conseguiu escutar as ninfas que, apaixonadas por sua beleza, queriam entrar em relação com ele. Narciso estava tão deslumbrado por si mesmo, por sua imagem refletida na água, extasiado por uma ilusão, por um engano, que caiu na água e terminou afogado. Narciso se afogou nas águas da própria admiração e do ego.

Vivemos uma profunda crise humanitária. A vida está cada vez mais ameaçada. A pobreza, a exclusão, a devastação ambiental e a violência vêm crescendo. A preocupação com a dor alheia e com o futuro do planeta parecem desaparecer e há pouca preocupação com a vida ameaçada. Continuamos com um consumo como se vivêssemos anestesiados, e a indiferença toma conta de nós. Escreve o Papa Francisco:

Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros, […] desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios; já não choramos à vista do drama dos outros nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas as vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma (Evangelii gaudium, 54).

Ao falar da compaixão, desse sofrer com, alegrar-se com, dessa conexão conosco, com o outro, com a vida, a primeira coisa que nos vem é o reconhecimento da loucura em que vivemos. Estamos desconectados de nós mesmos, desconectados dos outros, da criação e da Fonte da criação. Como chegamos a essa construção mental de que nos salvamos sozinhos, que outras criaturas são “apenas” objetos, coisas para nosso uso e nossa satisfação, fruto de nossos esforços e méritos?

O grito da encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, chama-nos de volta: abaixo da superfície, tudo está interconectado e ligado à Fonte de todos os seres; tudo é manifestação da única VIDA que chamamos Deus. E a última encíclica, Fratelli tutti, o grito põe o foco na vida humana, chamando-nos para acordar nosso sermos um com o Todo e entre nós.

A destruição da natureza, as crises humanitárias, líderes políticos em nosso e outros países expressam, de alguma forma, como está nosso “sentir com” o mundo e pedem para nos revermos como humanidade. É um apelo para uma profunda conversão em nosso modo de vida, para nos voltar para nossa essência, para nosso verdadeiro ser.

Será que o Narciso em mim permite que exemplos como o da Ir Dulce, do Irmão Francisco consigam me tirar do autoengano, da ilusão, do medo que me leva ao fechamento, do querer ter mais, consumir mais, competir mais? Essas atitudes nos levam a ser violentos com nós mesmos, com os outros, com a natureza.
Com a consciência de que tudo está conectado, que nos salvamos juntos ou nos afogamos juntos, podemos ultrapassar a indiferença, amar-nos de verdade em vez de amar ilusões e enganos; podemos sair da bolha de mais consumo, mais desmatamento, mais escravidão, mais velocidade, mais estresse, mais trabalho.

Precisamos permitir que o grito da vida ameaçada nos toque, nos mova. Nós, humanos, dependemos do amor para viver. Precisamos ir para um novo lugar, atingir um nível mais profundo dentro de nós mesmos. Isso pede investimento e esforço para ir além da superfície.

A compaixão faz parte de nossa natureza. É essencial no cuidado de nossa casa comum, da vida como um todo. A compaixão começa comigo mesma, interconectada com o Todo. Já escutamos e repetimos tanto “amar o próximo como a mim mesma”, mas será que tenho consciência do que isso significa e pede?

Reconhecer minhas fragilidades e erros me une aos outros. Acolhermos a própria dor, sairmos do lugar de vítimas é fundamental para tornar-nos compassivas, compassivos. Em sentido negativo, segundo o psicanalista Gruen, “A maior fonte de crueldade vem da rejeição de nossa dor”.

Um dos caminhos para despertar em nós a compaixão pode ser o encontro com os últimos, moradores de rua, encarcerados, indígenas, migrantes, povos ameaçados pelo avançar do agronegócio, as vítimas da injustiça. Eles podem nos dar uma sacudida e nos tornar narcisistas conscientes.

Uma boa vacina para curar-nos é olhar-nos no espelho dos desprezados, dos que incomodam, dos desempregados, dos que não têm para onde ir, migrantes, refugiados. São eles que contêm o antídoto para nossos males.

A dor do outro é um espelho do que dói em mim e que normalmente eu não consigo ver devido a meu olhar superficial. Olhando-nos no espelho dos “últimos”, podemos cair na conta de nossa loucura, de nossa violência. Podemos reconhecer na situação dos “últimos” as consequências da anestesia que consumimos; um nível de vida desconectada do outro e do todo. Podemos reconhecer que não somos tão belas, belos como nós nos achávamos.

A compaixão não é ter pena, pois estaríamos rebaixando a dignidade, o valor da vida no outro. A compaixão não é chegar superficialmente perto da outra pessoa que sofre para livrar-se, o quanto antes, dos incômodos que causa em nós. Seriam expressões da superficialidade de nossa vida não vivida em sua essência.

Olhar no espelho dos “últimos” pede voltar de novo a Jesus. Ao mesmo tempo em que se senta com os pecadores, as prostitutas, os de má reputação, Jesus tem uma profunda autoestima: sou a luz do mundo, sou o caminho a verdade e a vida… O Filho Amado, Sou Um com a Fonte da Vida, sou um com o Pai.

Só assim Ele pode ser gratuidade, doar-se sem interesse, ser compassivo até a morte de cruz, transformar em energia do amor e da compaixão toda dor envolvida.

Que possamos descobrir esse segredo de Jesus, de Francisco, da Irmã Dulce, cultivá-lo, vivê-lo para tornar presente a compaixão de Deus em nosso mundo.

Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS