Comunicação não violenta: uma linguagem de paz num mundo de conflitos

Muita gente, ao escutar sobre comunicação não violenta (CNV), entende que estamos falando de pessoas que são mal-educadas, que gritam, respondem de forma agressiva, etc. Com essa compreensão, dizem: “Isso não é para mim. Sou uma pessoa educada”.

Aí há um engano! A CNV não é sobre ser bonzinho e falar baixinho com muita educação e dizer o que as pessoas desejam ouvir, para evitar conflitos. Muito pelo contrário! Um dos pilares da CNV é a autenticidade.

A CNV foi desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg, a partir da década de 1970, e vem ajudando pessoas a transformar, pacífica e efetivamente, conflitos em 65 países, nos âmbitos pessoal, organizacional e político. Ele estudou e trabalhou com Carl Rogers, psicólogo e desenvolvedor da abordagem centrada na pessoa. Muito do processo da CNV recebeu influência da investigação de Rogers sobre os fatores que melhoram os relacionamentos.

Marshall nos provoca especialmente com três perguntas: “O que está vivo em você agora?”; “O que podemos fazer para tornar a vida mais maravilhosa?”; “Você prefere ter razão ou ser feliz?”.

A abordagem da CNV é um processo contínuo de conexão conosco e com as outras pessoas. As perguntas acima dizem respeito a essa conexão. Nessa busca, dois movimentos são importantes em relação à intenção e à atenção. A intenção para a conexão é “quero compreender você e ser compreendido, compreendida”. Na CNV, a intenção não é mudar outra pessoa. E a atenção diz respeito a estar presente, estar por inteiro diante de outra pessoa, grupo e nós mesmos. Isso quer dizer que é necessário um movimento interno de autoconhecimento e uma predisposição interna para acolher o outro. Para criar conexão, é essencial investir na autocompaixão, empatia e autenticidade.

A compaixão diz respeito à inclusão, aceitação e integração. A empatia refere-se a entender a perspectiva do outro, com a verdade do outro, da escuta ativa e do não julgamento. E a autenticidade fala da expressão do que realmente sentimos e de nossas necessidades. A CNV se baseia na escuta empática e na expressão autêntica.

Dizer “o que está vivo em mim agora” é falar de meus sentimentos e minhas necessidades. Aprendemos a falar o que pensamos e raramente falamos o que sentimos e do que necessitamos, com empatia e compaixão.

A girafa é um símbolo da CNV e representa a linguagem-padrão natural de falar e escutar a partir do coração e com ampla perspectiva. Essa linguagem deseja ser autorresponsável (criar compreensão mútua) e conectar-se consigo e com os outros.

Na CNV, o chacal simboliza o padrão habitual de ataque, defesa ou fuga. A linguagem do chacal quer mudar o outro, controlar, punir e ser dona da verdade. É uma linguagem de acusação, leva tudo para o pessoal, sempre encontra um culpado que, adivinhem, é o outro.

O processo da CNV tem quatro passos que nos ajudam a transformar reações automáticas em respostas conscientes:

1) observar o que está afetando nosso bem-estar, sem julgamentos e interpretações;
2) identificar sentimentos em relação ao que observamos;
3) identificar necessidades que dão origem a esses sentimentos;
4) fazer o pedido claro do que gostaríamos que fosse feito.

As necessidades humanas universais são necessidades comuns a qualquer pessoa, por isso são universais (autonomia, segurança, apoio…). O que varia de um indivíduo para o outro é sua manifestação e a maneira de atender a essas necessidades. Os conflitos geralmente ocorrem entre as estratégias.

A prática da CNV visa a buscar estratégias para atender às necessidades de TODOS. Ao escutarmos as necessidades e sentimentos dos outros, há uma abertura para a conexão. Nada é mágico. É um exercício e, conforme o aprendemos, nós nos desarmamos e interrompemos a agressividade, minha e a do outro.

Vale lembrar que é preciso querer a conexão. Às vezes, você quer, e a outra pessoa não quer. Se você escolheu, não desista. A CNV ajuda a reduzir hostilidades, curar a dor e fortalecer relacionamentos pessoais e profissionais.

Se você optou pela conexão, é importante enxergar o ser humano que está do outro lado ou atrás da mesa, na direção de um cargo, no lugar da mãe, do pai, do irmão, da vizinha… Ele é um ser humano e, como todos nós, tem sentimentos e necessidades. Tentar empaticamente identificar esses sentimentos e necessidades pode facilitar uma conversa difícil. Às vezes, você vai perceber que vocês têm as mesmas necessidades, e o que está em conflito são as estratégias. Isso vai facilitar a conversa.

Referências

MORRISON, Jean. A linguagem da girafa: um passeio divertido pelos fundamentos da comunicação não violenta. São José dos Campos: Colibri, 2019.
ROSENBERG, Marshall. A linguagem da paz em um mundo de conflitos: sua próxima fala mudará seu mundo. São Paulo: Palas Athena, 2019.

Sandra Mara Resende Pereira, pedagoga, especialista em Teologia Pastoral, mediadora de conflitos, facilitadora de CNV e círculo de mulheres, coaching logoterapêutica, coaching das emoções, graduanda em Psicologia, idealizadora e responsável pelo Espaço Flor de Lótus: educação, espiritualidade e autoconhecimento. Facebook: sandra.resende.54584.