O “que” você procura e a “quem”, em seus dias cheios e em seus dias vagos? A vida vai levando… a qual procura?
Estamos sempre à procura! De algo ou de alguém!
Meus cinco sentidos estão sempre à procura, alerta, me levando… Meus olhos se fixam em coisas que os atraem, mas poucas vezes se retêm só nelas, estão sempre perscrutando o que está à frente. Veem o que está próximo e voam para o que está longe. Eles me situam no mundo visível e me orientam na direção para onde prosseguir ou desviar. Meus ouvidos ficam atentos aos sons que ecoam de todos os lados e tentam decifrar de onde provêm e o que representam. Meu paladar saboreia sabores, distingue aqueles mais palatáveis daqueles outros. Meu olfato se aguça para distinguir odores e os seleciona entre agradáveis e desagradáveis; meu tato distingue o que é liso daquilo que é áspero, mole ou duro. Assim, meus cinco sentidos procuram, no contato com o mundo externo, certificar-se do que está aí e interpretar a relação que se estabelece comigo.
Eles (sentidos) estão sempre à procura de vasculhar o mundo que me cerca e me aperta. Por eles eu vejo, ouço, saboreio, cheiro e toco. A procura dos sentidos me põe em contato com o universo que está à minha volta, me faz viver e reagir àquilo que me diz respeito e me interessa ou mexe comigo, não consigo ficar indiferente. Meus sentidos me levam a passear pelo mundo das coisas reais, visíveis, e sintonizar também com algumas invisíveis, como o vento e o som.
Minhas emoções estão à procura do significado daquilo que as estimula e experimento. Por elas, minhas reações se multiplicam, umas me levam à proximidade, outras ao afastamento. Fazem meu sentimento flutuar para perto ou ir para longe, sacode meu corpo, alegrando-o ou estressando-o. Elas procuram me entreter com seu balanço, me distraem em busca do equilíbrio entre o que sinto e o que penso. Elas me espremem e me exprimem, me agitam, sacudindo-me entre extremos de hilaridade e temor, me enchem com suores, flutuando em ansiedade e bem-estar. Elas sempre me dizem que estou vivo! Elas me levam para o mundo das sensações que respingam em meus membros quando atiçadas.
Meus pensamentos procuram soluções para os problemas que me ocorrem, como também me forçam a analisar as coisas, avaliar se convêm ou não convêm, me põem em contato com os mistérios da vida, me trazem soluções e, às vezes, confusões. Inquietam-me e me acalmam, vislumbram horizontes e ofuscam fantasias. Eles estão sempre presentes até quando durmo, pois se misturam nos meus sonhos e não sabem explicar direito o que neles acontece. Meus pensamentos sabem me diferenciar das coisas, das plantas e dos animais. Eles são seres diferentes, e meu pensamento os compreende e aceita as diferenças de existir de cada coisa ou ser vivo. Sabe distinguir a vida presente, diferente entre animais e vegetais, como se comportam na natureza uns e outros. O pensamento vai sempre para diante, pesquisa, reflete, descobre, inventa, cria, sofistica, investiga o desconhecido e nunca se esgota, sempre tem algo a mais para desvelar e conhecer. Por isso meus pensamentos são insaciáveis, pois estão vinculados à curiosidade do mistério que perturba, estimula e desafia. Meus pensamentos me levam para o mundo das abstrações.
Meu espírito está em busca de sentido para tudo o que faço e não se conforma com explicações simples. Ele penetra meus segredos e agita minha alma. Sobe até os céus e desce ao caos. Ele me faz sentir pequeno diante do mistério maior e me perturba quando se defronta com os limites que se intrometem e dificultam meu discernimento, entretanto me enche de esperança quando descubro sentido para os enigmas que me afligem. Desafia-me em contato com o imanente e me deixa perplexo diante do transcendente; me apresenta seus dogmas, que aceito sem recusa por causa de minha fé, mesmo eu não entendendo tudo o que os envolve nem sabendo explicá-los bem, devido à minha ignorância. Meu espírito, às vezes, vacila entre o aceitar esperançoso e a dúvida inquietante. Mas me leva para paragens que desejo interiorizar e contemplar.
Constato então que, em minha procura, misturam-se um “o quê”, com desejo de possuir ou despossuir, e um “alguém”, que se configura num “quem” de duas espécies. Uma humana, outra divina que preenche meus espaços vazios, inacabados, carentes que precisam de um “o quê” e um “quem/alguém”!
“O quê” me diz: preciso de coisas para uso cotidiano, para gastar ou consumir, para guardar para o futuro ou para desfrutar imediatamente, para encher prateleiras, armários, estantes, fazendo reservas, ocupando espaços vazios, ou para completar algo começado, ou ainda sem finalidade nenhuma. A busca de “o quê”, essa procura, está no sangue; como se diz, faz parte da vida. Sem a procura do “quê”, a vida estaria esgotada, sem graça, sem horizonte, sem jeito, morta, deixando de existir.
Mas, minhas buscas não terminam em “o quê”; elas me levam para busca de “alguém” com quem conviver e compartilhar a vida. Sem companhia, o que consegui ter ficaria preso no meu egoísmo que me aniquilaria, por isso preciso de um “quem” que só encontro em alguém! Busco por alguém de carne e osso, com quem me relacionar; com quem competir; com quem discutir; com quem estabelecer vínculos; com quem descobrir caminhos; com quem confrontar significados das coisas que faço; com quem me desvelar; com quem conviver harmoniosamente, mesmo com algum desentendimento; com quem aprender sobre a vida; com quem dar prazer à vida; com quem que saiba escutar. Enfim, com um tu que espelhe meu eu para não ficar desconhecido de mim mesmo.
Minha procura por “quem” me faz querer alguém de carne e osso, mas mesmo tendo já, só, não me satisfaz, não me basta, porque há Outro “quem” que está, ao mesmo tempo, ao meu alcance e não o consigo possuir todo, nem dominar, nem submeter aos meus cuidados, mas sinto como necessário. Esse Quem mora dentro e fora de mim. Dentro porque o sinto presente, fora de mim porque se esconde no incógnito e impenetrável, além do meu alcance, mas no fundo, único necessário que preenche todas as procuras. Por isso constato que estou sempre à procura de coisas e de alguém/Alguém. Ambas as procuras ocupam meu tempo e meus espaços, e vão levando minha vida a seu destino.
Como se vê, a “procura” é parte essencial da vida. Leva e a impulsiona para frente. Satisfaz necessidades da vida biológica e de relações, da curiosidade do espírito, alarga espaços, adentra em pedaços do mistério e até que encontre sentido pleno.
A procura comporta um “porém”. É preciso discernir. Nem toda procura tem o mesmo peso, valor e significado! Há aquelas dos cinco sentidos necessárias, mas não absolutas. Há aquelas das emoções que precisam ser aceitas e integradas. Há aquelas do pensamento que precisam ser levadas a sério. Há aquelas do espírito que precisam de discernimento e internalização. Cada procura tem seu valor, dentro de seu espaço, sem se apossar do espaço que é da outra. Uma relação de complementariedade e não de exclusividade.
Por isso a “procura”, por vezes, precisa ser seletiva, fazê-la com discernimento para que satisfaça com equilíbrio o bem-estar físico e contemple o espaço para as coisas do espírito.
Você que me leu até aqui, em que busca está gastando sua vida? O “que” e a “quem” procura? Vale a pena seguir esse itinerário, sem o rever para onde está indo? Ou você é conformista e apenas canta “Deixe a vida me levar…”?
Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS
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