Em cada semente, uma faísca de eternidade

“Ele lhes disse muitas coisas em parábolas” (Mt 13,3)

 

O evangelho deste domingo nos traz uma das peças bíblicas mais populares e significativas da mensagem cristã. Poderíamos entrar na cena e visualizar-nos junto àquela multidão que escutava com prazer os ensinamentos de Jesus e que, mais uma vez, geram descontinuidade com a tradição judaica.

As parábolas são um modo de ensinar característico de Jesus. São pequenos relatos muito transparentes que Ele recolhe da vida cotidiana de seu tempo. Algumas delas já pertenciam ao patrimônio cultural, para além do sentido religioso. Pois bem, Jesus não inventa as parábolas, pois elas fazem parte de um estilo de comunicação utilizado por todos os povos e culturas, e pela mesma tradição rabínica.

O que é realmente original é que elas constituem o modo próprio de Jesus falar e ensinar; por isso, as parábolas conservam o mais nuclear e original de seus ensinamentos sobre o Reino de Deus.

Na verdade, Jesus de Nazaré é a verdadeira parábola, e os evangelistas captam bem essa dimensão de sua existência. Seu modo de ser, viver, pensar, agir e conviver revelam-se como profundas críticas à sociedade teocrática da época, que, em nome de Deus, rotulava e excluía, escondia interesses escusos, “abençoava” e justificava o poder constituído dos sacerdotes, anciãos, doutores da lei, escribas e fariseus.

O encontro com a mensagem de Jesus revela-se um choque que questiona tudo e todos. A relação com Ele exige total redirecionamento da vida. Simplesmente não é mais possível continuar com “odres velhos para guardar vinho novo”.

Com suas parábolas, Jesus não quer aliviar seus ouvintes, porém despertá-los da acomodação, desafiá-los, interpelá-los. Jesus não quer dominar seus ouvintes com doutrinas vazias; ao contrário, deseja que cada um, após tê-lo encontrado e escutado, possa se tornar sujeito ativo diante dos outros e de Deus.

As parábolas só podem ser compreendidas à luz de seu autor; elas dão a conhecer muitos aspectos da verdadeira identidade de Jesus de Nazaré: suas convicções de fé, seu estilo de vida, sua missão, seu modo de ser, suas opções, suas relações… As parábolas falam do “ser profundo” do seu criador: daí o imediatismo de seu efeito, pois tocam a interioridade de quem as escuta, falam diretamente ao coração, de sentimento a sentimento; daí também sua expressividade.

Todas as parábolas contadas por Jesus são perenemente belas porque, através delas, temos acesso ao que constitui o Seu coração; mais ainda, através delas, temos acesso ao segredo, ao “mistério” do próprio Jesus. As parábolas falam ao nosso coração, comovem nosso coração, porque nasceram do coração do Verbo eterno de Deus. Por isso, mais do que “falar em parábolas”, Jesus era a própria “parábola”.

A parábola é um estilo de linguagem original, pois abre novas possibilidades de vida, não é uma história a mais nem uma doutrinação, mas uma provocação. Ela respeita a liberdade do ouvinte, alegra sua imaginação, compromete sua consciência e anima sua iniciativa. A parábola introduz na vida um chamamento mais profundo; não remete a pessoa a um mundo diferente, longínquo, mas a um compromisso eficaz dentro deste mundo e dentro da realidade de cada um.

É necessário “entrar” na parábola e deixar-se surpreender pela sua inspiração envolvente. Não se pode ser neutro, senão expectador atento e ativo. A parábola nunca é tranquilizadora, senão que interroga, sacode o ouvinte, exigindo dele uma atitude de escuta, de abertura, pois em seu dinamismo sempre há um chamamento. As parábolas questionam, mas sem agredir; conduzem o ouvinte a confrontar-se com a verdade de sua situação e a tomar decisões novas, mas respeitando sua liberdade.

A parábola é uma pergunta deixada em aberto.

Na parábola deste domingo, a cena é iniciada pelo semeador: ele sai e, com um gesto, que une misteriosamente o céu e a terra, espalha, por toda parte e com abundância, uma semente de extraordinária potencialidade criativa. O Céu fecunda o grande ventre da Criação, o ventre da “terra”, e tudo canta e grita.

É o grito de júbilo da vida e da fecundidade, que é causa de realização e sentido pleno da criação.

O verbo “sair”, com o qual se inicia a narração (“… eis que o semeador saiu…”), é colocado numa evidente posição de destaque e evoca o tema do “êxodo”, de modo a dizer que, no início da narração, podemos perceber uma alusão ao mistério do “êxodo” de Deus, que “sai” do mundo divino e traz consigo uma potencialidade de vida, que desperta em nós assombro e admiração diante da maravilha da criação e da história, com uma vitalidade inesgotável. Nada do que foi espalhado cai no vazio ou é desperdiçado: tudo, até o menor fragmento, jamais volta a Ele sem produzir vida, beleza e força criativa.

O gesto de semear é alegre, generoso, transbordante e irrefreável, precisamente porque é gratuito: não é

um semear por semear; é um semear criativo, isto é, comunica em abundância, em toda parte e a todos, a força da vida.

Nesta parábola, a primeira coisa que percebemos é uma contradição com respeito ao semeador. O lógico seria que um bom semeador preparasse a terra para não desperdiçar as sementes e procurar ter a maior segurança de que elas vão germinar e produzir frutos. Mas este semeador as lança em todos os espaços, favoráveis ou não, preparados ou não. Jesus resgata, desse modo, a universalidade de sua mensagem que ultrapassa as fronteiras do Povo eleito e chega até aqueles que, segundo os escribas legalistas, não eram “terra boa”. Não elege a terra perfeita, aquela que cumpre perfeitamente a lei ou crê cegamente na doutrina, aquela que comercializa com a mensagem e espera receber um prêmio por sua boa conduta.

Não é assim nesta parábola do semeador. Jesus oferece a toda a humanidade a capacidade de encontrar um sentido profundo da vida, e toda pessoa é digna de recebê-lo.

Aquele ousado semeador não se preocupa, portanto, se a semente cai também onde não pode frutificar plenamente, é preciso ter um olhar diferenciado para aquelas sementes que caem ao longo do “caminho” e se tornam alimento e alegria para “os pássaros do céu que não semeiam, nem ceifam, não ajuntam em celeiros” (Mt 6,26); aquelas que caem em “lugares pedregosos” se tornam, mesmo com seu germinar efêmero, motivo de alegria, numa situação aparentemente incapaz de vida; aquelas que caem entre os “espinheiros” acendem a esperança, mesmo onde predomina a hostilidade. No final, sobretudo – e não só na “terra boa” – desce e pousa a luz dourada da bênção, da alegria e da esperança.

Este “estranho” semeador deixa a sua semente cair por toda parte; para ele, nada é inútil ou esquecido.

Em cada canto da Criação, desce a bênção da fecundidade. Ele semeia tudo, esgotando seus imensos celeiros, sabendo que a flor da vida enriquece a criação e a história humana. E, sob o olhar contemplativo do narrador, tudo se torna maravilha e beleza incomparáveis.

Por isso, não podemos definir antecipadamente o que é “boa” ou “má terra”, nem colocar limites à palavra, pois é ela que acaba se mostrando criadora, transformando o solo dos homens com sua força.

A parábola do semeador evoca a força e a beleza, mas, sobretudo, a abundância criadora de Deus, que diz sua Palavra fecunda por meio de Jesus e o faz de um modo transbordante, expandindo a boa semente em todas as terras do mundo.

O economista, homem de sistema, que busca eficácia e calcula, pensa de antemão e escolhe a terra mais fértil e boa; sabe onde estão os espinheiros e pedras; por isso não desperdiça a semente.

Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe e vive uma lógica mais sublime, aquela do poeta criador, que confia em todo tipo de terreno e se abre às surpresas inesperadas. Esta é a lógica da gratuidade e da abundância, que se expressa no gesto generoso do bom semeador da palavra do Reino.

Não devemos dar nenhuma importância à quantidade de respostas. A intensidade de uma só resposta pode dar sentido a toda semeadura. A sinuosa e longa trajetória da existência humana fica justificada com o aparecimento de um só Francisco de Assis ou de uma Teresa de Calcutá. Por isso Jesus pode dizer: “o Reino já está aqui, eu o faço presente; sua plena manifestação depende só de cada um”.

 

Texto bíblico: Mt 13,1-23

 

Na oração: somos seres de “enraizamento” e de “transcendência”; vivificados

pelo Espírito, somos Terra que pensa, sente canta e ama.

– Na presença do Senhor, deixe que a Palavra de vida ilumine e fecunde seus “terrenos interiores”, onde predominam pedras, espinheiros, dureza do solo…

– Você se parece com uma semente guardada no depósito, marcada pelo medo?

Ou se parece com uma terra ácida e estéril que não permite que nada germine?

– Em que circunstâncias seu coração se revela como “terra fértil”, gerando abundantes frutos?

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

 

 

Imagem principal: Chepko Danil (Istock).

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *