Enquanto a chuva cai…

Por minha janela, vejo a chuva mansa que está caindo lá fora. Hoje ela desce sem muito barulho, prometendo que vai passar umas horas assim. Sem me dar conta, encantou-me e me fez pensar sobre ela. Imagino-a como um sinal de bênção porque traz consigo a garantia para a terra de que sua fertilidade não ficará infértil. Mesmo sendo terra boa, sem a chuva, não seria capaz de produzir. A água da chuva e a chuva de águas irrigam o solo e despertam nele a força de germinar as sementes. Ela penetra em suas artérias, garantindo a vida das plantas, abastecendo as vertentes, os córregos, os rios, os lagos. A água da chuva corre para o mar e se retroalimenta. Nas fontes de águas cristalinas, os animais, os pássaros saciam sua sede… A água nos riachos desliza por caminhos traçados pela própria engenharia e desemboca nalgum rio que a leva para passear por longos caminhos até chegar ao oceano. Lá a água se torna salina para se conservar, fica balançando, forma ondas, faz subir e descer as marés e dali evapora para o céu, formando novas nuvens que voltarão a chover. Um ciclo que se repete há milhões de anos. Mesmo com tanta gente, animais e plantas consumindo-a, ela continua se recriando e garantindo “as vidas” de quem na terra está.

A nuvem que deságua, suas águas caem do céu e escorrem pelas ruas, entram pelos bueiros, apagam a poeira das estradas sem asfalto, lavam telhados, faz um barulhinho gostoso de se ouvir quando se está na cama para dormir. A nuvem, quando é grande, encobre o sol e deixa o dia meio cinzento. Quando ela predomina, tudo fica meio nebuloso, condicionado por ela. Faz mudar planos de idas e vindas. Mexe com as rotinas de trabalho. Por vezes, é preciso esperar que a chuva cesse. A dança da nuvem é meio misteriosa. Enquanto faz chover aqui, o sol se esconde; lá onde não chove, ele reina soberano. Quando a nuvem se atrasa e demora para vir, as pessoas olham para o céu, em sua busca, procurando sinais que indiquem que ela está chegando e, então, bendizem a Deus porque chove. Quando ela persiste por vários dias, alguns a maldizem porque atrapalha. Contudo, ela fica indiferente aos humores humanos. Ela se mantém obediente às ordens da natureza e pronto! Gostem ou não, ela tem as próprias leis. E nós dependemos dela. Sem ela, nossas caixas d’água ficariam vazias; nossos banhos, adiados; nossos alimentos, sem preparo; nossos ambientes, sem limpeza. Ah, bendita chuva! Sem ela, o mundo fica “seco”, e a vida, comprometida.

Quando as nuvens estão com sobrepeso, impulsionadas por ventos fortes, tornam-se tempestades. Ao soltar suas águas, elas caem e formam torrentes que tudo arrastam, causando medo, assustando, destruindo, trazendo sérios prejuízos.

Não podemos colocar qualquer condição. Ela é soberana e, para nós, necessária. Não temos como controlar sua intensidade nem suas ocorrências. Podemos saber, com antecipação, quando vai chover, se as “previsões de tempo” não falharem. De qualquer modo, não nos cabe definir nem dia, nem hora, nem quanto. Tudo isso pertence ao termômetro da natureza, que tem seus ciclos. Diante da chuva, somos passivos. Ela cai onde quer, independentemente de nossas opiniões ou decisões.

A chuva se envolve nos mistérios da Criação. Suas águas apareceram quando a ordem de Deus disse: “Faça-se!”. Elas fizeram depois a arca de Noé boiar por quarenta dias; abriram-se sob a vara de Moisés, obrigadas a se afastar, criando uma brecha no mar, permitindo aos israelitas passagem a pé enxuto. Depois, na travessia do deserto, esconderam-se, forçando Moisés a bater na pedra para dela sair água para saciar a sede do povo. Nas águas, vivem mergulhados os peixes e animais marinhos, e, lá em seus abismos, moram os mistérios. Elas suportam, com galhardia, os navios cheios de contêineres e, no alto-mar, escondem os horizontes, deixando sem “terra à vista”!

O próprio Jesus pediu água do poço de Jacó e, depois, revelou à Samaritana que tinha uma, que quem dela bebesse não teria mais sede. De seu peito aberto por uma lança, brotou água que escorreu por seu corpo. Assim, o mistério da água fica sempre maior.

Voltando às (ou das) nuvens, sabemos que elas se formam pela evaporação dos mares, dos rios, das florestas. As águas sobem e descem. Esparramam-se por todos os recantos do planeta Terra. Hoje caem aqui, correm para os rios sem que consigamos acompanhá-las para saber onde elas vão parar. Seguem seu curso, fundem-se em outras águas. Aquela que hoje desceu do céu, aqui, não sei amanhã onde estará.

Vou agradecendo a Deus pelos encantos da chuva. Elas saíram assim de suas mãos. A Bíblia a compara com a Palavra de Deus que diz: ela não volta para o céu sem antes ter produzido seu efeito na terra.

Se for ela de novo que vai chover amanhã, não sei; sua história e trajetória, não as conheço, mas ela continua me encantando, enquanto ainda a vejo chovendo, pela minha janela.

Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS
Padre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
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