Entre ações e orações: violentômetro

Foto: Deka.

Arrumando gavetas, eu me deparei com uma embalagem de papel que recebi numa farmácia, por ocasião da compra de um remédio prescrito, e guardei-o com muito carinho.

A mensagem tocou fundo: na frente do magrelo saco de papel, veio escrito “Orações mudam histórias” e, no verso, uma mensagem mais longa que transcrevo aqui parcialmente: “A oração é mais do que palavras; ela exige fé, esforço e uma atitude adequada”, e o texto seguia.

Ao me reencontrar com essa (des)pretenciosa e preciosa embalagem, vieram-me à mente muitas histórias de mulheres que foram caladas.

Eu até peço a Deus que nos livre do mal que é o feminicídio, o qual vem ganhando contornos cruéis na velocidade e veracidade das redes sociais, que nos inundam com tristes histórias que poderiam estar sendo escritas até hoje e foram interrompidas.

Mas, além de rezar, eu me lembrei também do VIOLENTÔMETRO, um material muito didático, criado originalmente pelo Instituto Nacional/Comissão de Direitos Humanos, sediado no México.

No site oficial do Ministério das Relações Exteriores do Governo Federal, encontrei a seguinte síntese:

 

O violentômetro foi criado no México, pela doutora Mar tha Alicia Tronco Rosas, fundadora do Programa de Gestão Institucional com Perspectiva de Gênero do Instituto Politécnico Nacional. Desde então, foi disseminado por todo o mundo, tendo sido inclusive adotado pela ONU Mulheres e diferentes figuras políticas no Brasil. Trata-se de ferramenta de grande importância para identificar e combater a violência contra mulheres, porque ajuda não apenas as vítimas, mas também familiares e amigas a reconhecerem os sinais de abuso, a identificarem e assim prevenirem situações de risco. A escala, que se assemelha a um termômetro, indica diferentes níveis de violência, desde comportamentos menos agressivos até à violência física e psicológica, e permite que as vítimas reconheçam a situação em que se encontram e que muitas vezes não percebem como violência.

 

O VIOLENTÔMETRO é um material que costuma ter a imagem de um termômetro, cuja temperatura vai subindo até ferver, demonstrando as sutilezas de um covarde “processo feminicida” em três escalas de riscos.

O alerta é simples: a violência pode se encontrar oculta e imperceptível na vida cotidiana. Os sinais, muitas vezes, nos confundem, e, pelo desconhecimento de que atitudes que surgem inadequadas e inaceitáveis podem até virar feminicídio, não lhe damos o devido enfrentamento.

Ao surgirem as primeiras sutis (ou nem tão sutis) manifestações de violência, o VIOLENTÔMETRO entra em ação. São cenas de ofensas, gritos, intimidação, ridicularização, chantagens, acusações que acendem o primeiro alerta: TENHA CUIDADO, A VIOLÊNCIA SEGUIRÁ AUMENTANDO.

Ao subir da temperatura com suas expressões de violência recorrentes, a gradação sobe: REAJA, PEÇA AJUDA. Nessa etapa, as manifestações cotidianas da violência contra mulher ganham tons explícitos de controle, enfrentamento corporal, de ameaças com relação aos filhos, dominação, e assim se passa para o último e temido patamar.

No último patamar, o alerta é taxativo: SUA VIDA ESTÁ EM PERIGO, ENFRENTE A SITUAÇÃO E SALVE-SE. A imposição violenta se estabelece, juntamente com ameaças de morte, mutilação, cárcere e morte.

Na vida como ela é, nada é tão previsível. Etapas e atitudes violentas se aprofundam num ritmo próprio e nem tão “escalonável”, mas, no fim desse ciclo, o feminicídio se impõe de forma cruel e avassaladora.

Resumindo nosso VIOLENTÔMETRO, do ponto de vista da gradação de cores adotadas:

 

– um esverdeado suspeito… TENHA CUIDADO, A VIOLÊNCIA SEGUIRÁ AUMENTANDO;

– um amarelado que pode cegar… REAJA, PEÇA AJUDA;

– um vermelho que mata… SUA VIDA ESTÁ EM PERIGO, ENFRENTE A SITUAÇÃO E SALVE-SE.

 

O VIOLENTÔMETRO foi atualizado e incorporou algumas violências mais representativas que estão sendo produzidas na era digital. Numa tradução livre e, sob minha adaptação, a gradação seria assim (prepare-se para os próximos parágrafos, leia em velocidade como se estivesse caindo num túnel…):

 

– um esverdeado suspeito: piadas ofensivas, chantagens, mentiras e enganações, ignorar com o silêncio, vigiar, espiar, “stalkear” (perseguir alguém de forma obsessiva e persistente, seja fisicamente ou on-line), culpabilizar, desqualificar…;

– um amarelado que pode cegar: ridicularizar e ofender, humilhar em público, intimidar, ameaçar (inclusive com relação aos filhos), controlar e proibir amizades, familiares, lugares e redes sociais, destruir objetos pessoais, carícias violentas, golpear, arranhar, sacudir, dar puxões, dar tapas no rosto, chutar, dar pontapés…;

– um vermelho que mata: prender, asilar, cometer “sextorsion” (ameaça de se divulgarem imagens íntimas para forçar alguém a fazer algo; ou por vingança, ou humilhação, ou para extorsão financeira), ameaçar com objetos ou armas, difundir sem consentimento conteúdos íntimos nas redes sociais, ameaçar de morte, forçar relação sexual, abusar sexualmente, violar, mutilar, assassinar.

 

“Violentômetro” criado pela doutora Martha Alicia Tronco Rosas, no México, e adaptado para diversos países.

 

Um segundo de silêncio…

O alerta é simples: a violência pode se encontrar oculta e imperceptível na vida cotidiana.

O VIOLENTRÔMETRO é uma ferramenta que cabe no olhar, na mente e nas palavras de qualquer pessoa que, além de seguir orando, rezando, contemplando, desejando um mundo fraterno e mais seguro (para as mulheres, inclusive), também possa ser multiplicador, encorajador e apoiador do enfrentamento de situações que se revelam cotidianamente e teimamos ignorar.

Orações e ações mudam histórias!

 

 

Para saber mais

 

https://www.euamopao.com.br/ (empresa autora da embalagem inspiradora)

 

https://www.gov.br/mre/pt-br/consulado-lisboa/espaco-da-mulher-brasileira-em-lisboa-emub-lisboa/violentometro

 

https://www.ipn.mx/genero/materiales/violentometro.html

 

 

 

Maria José Brant (Deka)

Assistente social, jardineira nas horas vagas.

 

 

Imagem principal: Asiandelight (Istock).

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