Era tão pobre, tão pobre que…

Ouvi, não faz muito tempo, a seguinte expressão direcionada a uma pessoa: “É tão pobre, tão pobre que a única coisa que tem é dinheiro!”. Chamou-me atenção a frase pelo seu significado escondido atrás da aparente ironia.

Nos costumes cotidianos, dizemos que uma pessoa que tem muito dinheiro é rica! Na expressão acima é o contrário! Como entender? Afinal de que riqueza ausente estava se falando? Pensando sobre isso, noto que é uma frase enigmática em significado, porque revela um engano alimentado por muitas pessoas. Aquelas que colocam a razão de sua vida em acumular dinheiro. E quanto mais têm, mais querem, são insaciáveis; em suas contas bancárias, parece nunca terem o suficiente, mesmo que de tanto que têm, não saibam o quanto possuam. Enchem-se de ambições e ganância que alimentam e consomem seus dias correndo atrás de dinheiro. Sua sede por ele é tal que não descansam, não dormem direito, distanciam-se das pessoas, criam inimizades, comprometem relações familiares. Suas vidas vão se tornando um vazio existencial que os torna tão pobres, pobres que a única coisa que lhes sobra é dinheiro!

Certa vez, uma pessoa me procurou e contou a seguinte história. “Eu desejei ser feliz e acreditei que conseguiria ser se tivesse recursos para realizar meus sonhos. Trabalhei e consegui ter sucesso nos negócios, que me possibilitaram viajar por muitos países, fazer compras em butiques chiques, frequentar restaurantes famosos. Qualquer desejo que me viesse à cabeça, eu corria atrás para mais uma aventura em busca da felicidade. Momentaneamente, gozei honestamente dos prazeres a que minhas posses me deram acesso. Se você me perguntar se estou feliz, minha resposta é: não. Penso que me enganei na busca, porque achei que a felicidade estava ao alcance de meu dinheiro. Constato que não, apesar dos momentos bons que ele me causou. Mas, em relação à vida, sinto um vazio profundo que meu dinheiro não preencheu”.

Brincando, eu lhe disse: “Eu não sou dono de agência de viagem, nem dono de butique, menos ainda de restaurante. E você sabe disso. Imagino que você veio conversar comigo porque sente uma necessidade de outra busca. Então, em que posso ajudá-lo em sua busca?”.

“Diga-me onde encontrar Deus, porque é disso que eu preciso para ser feliz.” Surpreendeu-me a resposta! Lembrei-me então de um pensamento de Santo Agostinho que disse a esse respeito: “Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro, e eu fora! Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Estavas comigo, e não eu contigo…”.

Essa experiência de vazio existencial é uma realidade muito presente em nosso tempo. Quanta gente sofre desse mal! O desespero causado pelo vazio leva a caminhos sempre mais tortuosos, e poucos param para se perguntar: afinal para onde está indo minha vida? Em que estou gastando meus dias? Faz sentido o jeito que estou levando a vida? Que felicidade procuro? É necessário arriscar-se na aventura de um passeio interior e deixar que a própria vida diga o que ela quer para seu futuro, algo que lhe dê significado e razão para lutar.

Como vimos acima, o dinheiro não pode ser a meta, porque o próprio tempo desmente quando o coração se cansa e reclama que está vazio. No caso relatado acima, a pessoa queria saber onde encontrar Deus. Na resposta de Santo Agostinho, Ele estava a seu alcance, dentro de si, mas, enganado, procurava fora, convencido de que o dinheiro era que podia garantir-lhe a felicidade. Nossa vida foi feita para Deus. Teimar em direcioná-la para outros fins, só vai sobrar o vazio. Certa estava a observação inicial, “Era tão pobre, tão pobre, que a única coisa que tinha era dinheiro”.

 

 

Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS

 

 

 

 

Foto principal: Olga Yastremska (Istock).

 

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