Grandeza e força da sensibilidade

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas porque estavam cansadas e abatidas…” (Mt 9,36)

 

O ser humano se revela pela sua sensibilidade; cada pessoa é o que é sua sensibilidade; e cada um faz o que lhe dita sua sensibilidade.

Fazemos aquelas coisas às quais somos sensíveis e deixamos de fazer tudo aquilo a que somos insensíveis.

Mais ainda, a sensibilidade tem tanta força na vida que acaba modificando até as convicções mais firmes e, em geral, a maneira de pensar. As situações mais importantes da vida, principalmente quando se trata de sofrimento, de bem-estar ou desfrute da vida só podem ser administradas adequadamente com base na sensibilidade e não com base na lógica da razão.

Por isso, segundo o filósofo Lévinas,“A ética é uma nova sensibilidade para com os outros”. Para ele, o “rosto” não é a simples face física, mas a expressão da humanidade e da vulnerabilidade do outro, que nos interpela e nos convoca à responsabilidade.

Aquele que é sensível diante da dignidade, dos direitos ou da dor de outra pessoa se comportará de maneira correta com quem estiver diante dele. Do mesmo modo, aquele que é insensível diante das situações humanas com as quais se depara na vida, por muitas que sejam as ideias morais que tenha armazenado em sua cabeça, será um indigno, um indiferente diante da dor alheia, um violento.

Nesse sentido, a sensibilidade é o motor da vida e da conduta humana.

Com relação a Jesus, quando os Evangelhos tratam da sensibilidade d’Ele, utilizam o verbo grego “splagchnizomai”, referindo-se a uma emoção extrema, experimentada em determinadas situações de sofrimento, enfermidade ou exclusão.

Esse verbo faz referência aos órgãos internos, às entranhas do ser humano, consideradas como a sede dos sentimentos; significa literalmente “sentir uma comoção das próprias entranhas”. Traduzimos este verbo por “ter compaixão”.

Portanto, quando os Evangelhos utilizam esse verbo, para fazer referência às relações ou comportamentos de Jesus, na realidade, o que falam é algo que diz respeito à sensibilidade oblativa d’Ele.

É importante perceber que a sensibilidade de Jesus é mencionada nos evangelhos somente quando se trata de situações de sofrimento dos outros. Jesus reagia visceralmente diante daquele pobre povo que desfalecia de fome, de exclusão e de miséria; Jesus não suportava ver pessoas passando necessidade, não aguentava a dor dos outros; sua sensibilidade não tolerava isso.

Uma sensibilidade cristificada não se mantém quieta diante da dor e da desgraça do outro. Ao contrário, quando alguém é insensível diante de determinada situação, dizemos que permanece “indiferente” ao que ali acontece. Existe, portanto, uma equivalência clara entre insensibilidade e indiferença.

E a indiferença é tão desumanizadora quanto a violência, ou seja, a indiferença diante do sofrimento provoca tanto ou mais danos que a violência.

Sem dúvida, quem melhor se deu conta da gravidade violenta da indiferença foi Jesus, através de diferentes parábolas (o rico epulão e o pobre Lázaro – Lc 16,19-31; o bom samaritano – Lc 10,25-37; o juízo final – Mt 25,31-46…). A prática da compaixão para com os empobrecidos e a crítica àqueles que geram o empobrecimento foram a causa principal da condenação de Jesus à morte e à execução na cruz.

Portanto, a sensibilidade humana diante do sofrimento ou da felicidade das pessoas não é um critério que se baseia em um princípio religioso. A sensibilidade não tem como fundamento nenhum dogma sagrado, nenhuma norma revelada nem lei sobrenatural alguma.

Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade.

A sensibilidade é comum a todos e é prévia a toda afirmação religiosa.

Com uma “sensibilidade à flor da pele”, a atuação missão de Jesus foi muito mais terapêutica que “moral” ou “religiosa”. Não é que Ele não se preocupasse com o pecado, mas, para Ele, o pecado que mais se opõe a Deus é precisamente causar sofrimento ao outro ou tolerá-lo com atitude indiferente.

Por isso, sua sensibilidade oblativa abria espaço para que prontamente se aproximassem d’Ele todo tipo de pessoas desvalidas e excluídas. O profeta da misericórdia de Deus atraía, sobretudo, aqueles que viviam afundados na miséria, os despossuídos de tudo, os que não tinham o necessário para viver. Todos tinham um traço comum: viviam em um estado de miséria do qual já não podiam escapar. Não tinham ninguém que os defendesse; eram a “massa sobrante” daquela sociedade. Vidas sem futuro.

Para Jesus, aquela miséria e sofrimento que condena as multidões à fome, à enfermidade e ao pranto não tem sua origem em Deus. Pelo contrário, toda aquela situação desumanizadora é um escândalo para Ele. Deus quer ver a todos saciados, felizes. Aqueles a quem ninguém se interessa, Deus, sim, revela sua paternidade acolhedora. Aqueles que sobram entre os homens têm um lugar privilegiado em Seu coração. Aqueles que não têm ninguém que os defenda tem a Deus como pai/mãe providente. Todo mundo deve saber e sentir que são os filhos e filhas prediletos de Deus.

Por isso, Jesus atuava movido pela compaixão do Pai. A compaixão é o modo de ser de Deus, sua forma de olhar o mundo, o que o move a torná-lo mais humano e habitável. A compaixão é o atributo primeiro e a atitude fundamental de Deus, exemplo de sensibilidade diante do sofrimento e da opressão.

Os olhos de Jesus viram muita dor, miséria, violência…, e suas entranhas se comoveram. Viu o seu povo despojado da terra, dos direitos mais elementares… Jesus viu e se compadeceu; compadeceu-se e indignou-se; indignou-se e se comprometeu na transformação daquela realidade dolente; comprometeu-se porque seus olhos viram mais a fundo, mais além e sentiu que outro mundo é possível.

Na raiz de sua atividade terapêutica e inspirando toda sua atuação junto aos enfermos esteve sempre seu amor compassivo. Jesus se aproximou dos que sofriam, aliviou sua dor, tocou os leprosos, libertou os possuídos por espíritos malignos, os resgatou da marginalização e os devolveu à convivência.

Mas o olhar de Jesus não se fixou somente na fragilidade e no sofrimento humano. Surpreendentemente, depois de dizer que “as multidões estavam cansadas e abatidas”, Ele afirma que já chegou o tempo da colheita. Como é possível essa mudança de linguagem? Para Jesus, a colheita está aí, à vista.

Essa afirmação supõe um segundo olhar, mais profundo que o anterior. Seus olhos não se fixaram no abandono e na miséria, mas perceberam, no meio da multidão, valores que crescem em circunstâncias nada favoráveis, uma maturidade de trigo preparado para a colheita. Esse olhar é muito mais lúcido. Atravessa a exterioridade das aparências, dos julgamentos dominantes que desqualificam o povo simples, e descobre os verdadeiros valores, a obra do Pai, o Reino que chega a todos que o buscam com tanta paixão.

Se as multidões procuram Jesus é porque dentro delas está vivo o Reino, porque não se deixam derrotar pelas situações mais hostis e desesperadoras.

Na encíclica “Magnífica Humanitas”, o Papa Leão XIV afirma:

 

“Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual” (MH n. 239).

Texto bíblico: Mt 9,36-10,8

 

Na oração: é preciso “cristificar nossa sensibilidade” para prolongarmos o ministério terapêutico de Jesus.

No calor da compaixão ativada, brota o chamado de Jesus e a resposta dos seus(suas) seguidores(as). Sem compaixão, a resposta ao chamado se esvazia, o serviço se burocratiza, o seguimento vira lei.

– Sua vivência cristã é expressão do “projeto humanizador” de Jesus ou se restringe a cumprir “ritos religiosos” estéreis, sem impacto na transformação da realidade injusta?

 

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

 

 

Imagem principal: Antonio Diaz (Istock).

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