Hans Jonas: “Princípio responsabilidade: uma ética para a civilização tecnológica”

“Princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica” é o último livro do filósofo Hans Jonas, que o escreveu em 1979, em sua maturidade, aos 76 anos. O autor ilustra a relação do humano com a natureza, com base em Antígona, tragédia grega de Sófocles que louva o engenho humano para subjugar, e relaciona a civilização com a violação da natureza. Diante das circunstâncias de seu tempo e da imensidão do mundo que alcançava, o ser humano percebia a extensão de seu poder como braço curto diante do implacável mundo natural.

O reconhecimento do mundo como ameaçador, o desconhecimento dos efeitos cumulativos de suas atividades e o limitado alcance geográfico da atividade humana possibilitou uma mentalidade de salvo-conduto para que o humano torturasse a Terra e dela tirasse mais do que seu sustento. Para Jonas, em tal mentalidade, a natureza não está relacionada apenas à nossa relação com os ciclos da terra, do ar e do mar, mas também a uma segunda natureza: a cidade, o artifício humano por excelência, que adquire significado de casa, de espaço para a existência humana. É nela que ocorre a vida humana criada e a civilidade. Também é na cidade dos homens e nas regulações que a acompanham que o humano se refugia contra a natureza. Seduzido por sua autoexpressão e poder, o humano concebe o processo de conquistas como infinito e, para domesticar suas necessidades e humanizar a vida, extorque a natureza.

Entretanto, nem tudo foi ou é tão controlável quanto imaginou o humano ao transformar a tecnologia em sua fé, nem a natureza é tão passiva quanto supunha o Homo faber. A insignificância dos gestos humanos para afetar os ciclos da terra, mesmo nos tempos de Sófocles, tem sentido somente quando a vida humana é considerada individualmente, na cronologia de apenas uma vida ou uma geração.

Diante da tendência humana de iniciar movimentos de consequências irreversíveis (que raramente conseguimos prever), Jonas propõe um princípio de autocontenção e de autorregulação para que nossas atividades não coloquem em risco a existência das gerações futuras. No “Princípio responsabilidade”, proposto por Jonas, os afetos, sentimentos e emoções ocupam lugar importante para impulsionar ações ou atitudes. Em sua proposição de uma ética para o futuro, o autor situa a vida como sagrada, como digna de reverência, como herança para as gerações futuras, como patrimônio que deve ser protegido e cujas condições devem ser preservadas, sem degradação, da ação do tempo ou da ação humana.

Que as nossas atividades de educação ambiental disseminem atitudes de reverência à vida em 2026.

 

 

Nota: artigo adaptado de EVERLING, M. T. Do design e de uma ética coerente à vida, um ensaio com Hans Jonas. Aoristo – International Journal of Phenomenology, Hermeneutics and Metaphysics, [S. l.], v. 5, n. 2, p. 210–227, 2022. DOI: 10.48075/aoristo.v5i2.29839. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/aoristo/article/view/29839. Acesso em: 21 jan. 2026.

 

 

Para saber mais

 

JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006.

 

 

Marli Teresinha Everling

Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (https://blog.ssps.org.br).

 

 

Foto principal: Ron Lach (Pexels).

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