Jesus terapeuta, reconstrói as relações fraternas

“Eu quero, fica curado!” (Mc 1,41)

Continuamos no primeiro capítulo de Marcos que resume a habitual maneira de Jesus atuar. E o evangelho de hoje nos fala de um leproso cara a cara com Jesus de Nazaré! Um leproso em Israel não era, de modo algum, um enfermo qualquer: seu grau de impureza era tal que sua exclusão sociorreligiosa era a mais radical das exclusões ordenadas na Lei: “O homem atingido de lepra andará com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’. Durante todo o tempo em que estiver contaminado de lepra, será impuro. Habitará a sós e terá sua morada fora do acampamento” (Lv 13,45-46). 

Não é fácil imaginar a carga de sofrimento e marginalização imposta pela enfermidade da lepra na Palestina do séc. I. O doente era obrigado a carregar não só o peso da enfermidade, da vulnerabilidade e do medo que procedem dela, mas também o estigma de ser considerado “pecador” e com a marca da rejeição que se concretizava numa severa norma de marginalização social. Tudo isso fazia com que o leproso fosse visto como um “empesteado” em todas as dimensões (física, social e religiosa).

Mas, mesmo nos casos mais desesperados, ainda havia a esperança de recuperar a saúde e, com ela, a possibilidade de reintegrar-se mais plenamente na vida social.

Compreende-se, então, que quem padecia de lepra desejasse, acima de tudo, “ficar limpo”. E essa é a petição que faz com que o leproso do relato se aproximasse de Jesus.

“Chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: se queres, tens o poder de curar-me.” Esta atitude indica, ao mesmo, tempo valentia, porque se atreve a transgredir a Lei, mas também temor de ser rejeitado, precisamente por isso. 

A ação terapêutica de Jesus acontece em quatro passos. O número quatro representa o aspecto terreno, o ser humano é reestabelecido em sua humanidade, à imagem do Deus que o criou.

O primeiro passo da cura: Jesus tem compaixão para com o leproso e se abre para o doente. 

O segundo passo: Ele estende sua mão, prolongando seu coração compassivo e estabelecendo assim um contato. 

O terceiro passo: o Mestre toca o leproso, quebrando uma norma legal que o excluía por ficar contaminado. Jesus não tem medo do contato físico; aproxima-se do doente, ativa todos os seus sentidos para senti-lo, demonstrando assim sua dedicação incondicional.

O quarto passo: o Mestre diz ao doente “Eu quero, fica limpo”. Ele demonstra sua dedicação ao doente.

O gesto de Jesus de “tocar o leproso”, expressão de sua profunda compaixão, revela uma clara confrontação com o que era exigido pela Lei; fala, de um modo eloquente, da forte reação de Jesus diante da exclusão à qual está submetido um ser humano.

Jesus despede o leproso já curado para que os sacerdotes do Templo de Jerusalém atestem sua cura e autorizem sua integração junto à sociedade: respeitoso do código social de pureza-impureza, o Galileu situa o homem curado diante da Lei como caminho para recuperar seu lugar na comunidade.

O leproso curado não permanece passivo, simplesmente acolhendo o dom que acabara de receber, senão que participa também, em certa medida, na cura da qual é o beneficiário.

Mas o curioso é que acontece algo fascinante: o excluído perde todo interesse em sua inclusão social a partir da Lei; em vez de ir ao Templo de Jerusalém, torna-se um propagandista da pessoa de Jesus. Sem dúvida, o ex-leproso encontra no mesmo Jesus a possibilidade nova de inclusão em uma comunidade que não gira em torno à Lei, mas em torno à igualdade fraterna. É justamente o gesto da imposição de mãos de Jesus um desafio implícito ao mundo da Lei que abre ao leproso um horizonte radicalmente diferente: o Reino de Deus, no qual se sente incluído.

Permanece, então, a memória da mão estendida de Jesus de Nazaré sobre a pele do leproso como gesto crítico às leis de uma sociedade que rejeita todo aquele que não se acomoda aos seus preconceitos; ao mesmo tempo, tal gesto se revela como uma forte exigência à comunidade universal de discípulos que o Mestre fundara para ser o espaço de inclusão que, de modo alternativo, venha a ser o lar de todos os excluídos. O fato de que Jesus se aproximasse dos doentes e se deixasse tocar por eles, ou de que os curasse de forma pouco ortodoxa, era um atentado contra as normas de pureza que foram impostas à sociedade palestina daquele tempo. Jesus não teve receio em transgredir essas normas, pois só assim podia se aproximar daqueles que estavam em situação de exclusão.

O que chama a atenção é a “gestualidade” de Jesus: Ele se aproxima dos homens e mulheres de sua época, toca os enfermos, impõe as mãos, toma as pessoas pela mão, estende as mãos…

As verdadeiras curas e milagres de Jesus são, antes de tudo, gestos de “humanização evangélica”. Curar é sua forma de amar e seu amor curador o impulsiona à proximidade, estima para com o enfermo, respeito à capacidade de cura da própria pessoa. Seu amor que cura é gratuito.

Ao curar fisicamente uma pessoa, Jesus busca fazer emergir um ser humano mais sadio e inteiro, a partir de suas raízes, a partir de seu coração, centro e fonte das decisões. Jesus se compromete com a saúde radical e integral do ser humano, e devolve às pessoas a saúde em seu corpo, em suas emoções, projetos, relações e abertura ao Transcendente. 

Através das curas, Ele mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura seu universo relacional e abre sua interioridade à alteridade; ao mesmo tempo, Ele potencia a liberdade do ser humano, recuperando a autonomia e a capacidade de dar direção à própria vida. 

A enfermidade e o sofrimento têm muito a ver com a fragmentação, a dispersão e a divisão. A pessoa curada por Jesus recupera a harmonia, a unificação interior, a reconciliação com a vida e a relação com os outros.

Ser curado implica assumir uma responsabilidade que leva a implicar-se na transformação pessoal e social. A saúde integral tem a “carga” da maturidade e da responsabilidade na própria vida e no próprio processo.

O evangelista Marcos destaca que, em Jesus, a “comoção das entranhas” é o núcleo de sua ação curativa.

O sofrimento das pessoas desperta n’Ele a compaixão e o amor. 

De fato, o primeiro sentimento que aflora em Jesus quando se vê diante dos enfermos é o da compaixão. Movido por ela, viola a lei que proibia aproximar-se e, muito mais, tocar o leproso. E assim revela que é a compaixão que cura as pessoas e não a simples observância da lei. 

A compaixão constitui, ao mesmo tempo, o sentimento e a atitude nuclear de Jesus e um dos eixos do evangelho. Na realidade, todas as grandes tradições espirituais reconhecem a compaixão como o “test” que verifica a autenticidade do caminho espiritual.

Não se trata de um mero sentimento superficial que brota de nossa sensibilidade diante do sofrimento do outro. É um sentimento infinitamente mais profundo, uma comoção interior que nos faz estremecer com a pessoa que sofre (“com-paixão”, “cum-passio” significa literalmente “sofrer-com”; no grego “sym-pátheia”, termo eloquente que evoca atitudes de simpatia e de empatia); sentimento que nos põe na pele do outro, nos faz sentir com ele, e nos mobiliza a uma ação eficaz de ajuda.

Texto bíblico: Mc 1,40-45

Na oração: há tantas dimensões de nossa vida nas quais o corpo fala mais alto: maneira de nos aproximar dos outros, de acolher, de cuidar, a delicadeza com que nos relacionamos… Nosso corpo pode expressar compaixão ou rigidez, calor humano ou frieza, acolhida ou preconceito…

– Suas mãos são o prolongamento das mãos divinas? Abertas, generosas, solidárias, que se estendem e envolvem os outros num abraço, sabem “bordar uma carícia”? Sabemos que nesses e em muitos outros gestos Deus está verdadeiramente ao alcance das mãos

“Devemos tocar a carne de Cristo” (Papa Francisco). Como você sente suas mãos? Elas são o prolongamento do seu coração compassivo para poder “tocar em Deus”? 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

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