Junho, mês dos santos populares

Junho é um mês que se caracteriza pela comemoração de santos populares: Santo Antônio, São João, São Pedro, São Paulo. São recordados e homenageados pela piedade que seus devotos nutrem em sua fé. Muitos o fazem sem mesmo ter razões profundas para isso. Fazem porque é tradição e é motivo de festa. Em algumas regiões, com mais intensidade e com grandes eventos. Que reflexão se pode fazer sobre isso?

Por um lado, podemos dizer que essa fé na proteção vinda do santo traz para o crente um sentimento de ser cuidado, amparado nas horas difíceis. O santo é uma certa garantia para a vida, pois crê que, fazendo suas rezas, suas promessas, pedindo sua ajuda, vai preservá-lo de perigos ou ajudá-lo a sair de dificuldades. Há um fundo religioso transmitido pelos ancestrais e que gera uma certeza de que esse é o caminho para sua crença. A pessoa encontra no santo algumas virtudes que admiram e estimulam a imitá-lo.

Por outro lado, para muitos, a celebração do santo é apenas uma expressão cultural, pouco religiosa, uma ocasião para fazer festa e divertir-se. Não conhecem nada a respeito da vida do santo e muito menos por que este é santo e por que se tornou popular. O importante é que, em seu dia, há festa, comidas típicas, danças e outras manifestações culturais.

E o que é ser santo? Segundo a fé cristã, a vocação à santidade é própria de todo batizado. É algo inerente do ser cristão. Todos são chamados a viver buscando cotidianamente a santidade. Ela está ao alcance de todos. Consiste na prática diuturna de uma vida correta, honesta, em que se respeitam os valores humanos fundamentais e os valores religiosos do amor a Deus e ao próximo, bem como uma conduta moral e ética congruente com os princípios cristãos. Os santos canonizados pela Igreja tiveram uma vida comprovada por virtudes heroicas que servem de modelo para todos.

Não é necessário, contudo, ser canonizado ou beatificado para ser santo. Há muitos santos anônimos. Pessoas que viveram praticando o bem, deixando um testemunho de vida admirado por aqueles que o conheceram.

Quando nós recordamos a vida de santos dos quais somos devotos, eles passam a fazer parte de nossa piedade. Significa então que damos um reconhecimento àqueles valores vividos por eles e se tornam referenciais para a vida. Na verdade, é uma necessidade humana apoiar-se em modelos que estimulem as vivências, pois eles nos dão certa segurança naquilo que estamos fazendo. Atribuímos, às vezes, até poderes mágicos que dispensam o empenho pessoal. É como se pensasse “confio em tal santo, e por isso estou protegido, não preciso fazer nada a não ser uns ritos para ter a certeza de sua proteção”. E, nesses ritos, muitos deles bizarros, esconde-se uma fé pouco profunda e comprometida, mas que serve de alívio e diminui as tensões.

Podemos pensar que, dentro disso tudo, há também algo de misterioso. Isto é, coisas que são aceitas ou feitas sem conhecimento profundo de suas razões, mas que exercem um poder condicionante no modo de pautar a própria a vida. Isso também nos revela que somos carentes e necessitados de certezas que vão além da lógica.

Não nos bastamos sozinhos. Precisamos de suportes para nossa vida e nossa crença. Os santos de nossa devoção exercem esse duplo papel de assegurar um aliado nosso mais forte, com poder de interceder a nosso favor e dar uma legitimação a nossos modos de viver.

Mês de junho, mês de santos populares. Que sua popularidade nos ajude a viver os valores que pautaram suas vidas.

Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS
Padre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.