Movimentos lembram os 40 anos da morte do operário católico Santo Dias

Movimentos eclesiais e sociais recordam, nesta quarta-feira, 30 de outubro, os 40 anos do assassinato do sindicalista católico Santo Dias da Silva. O operário é uma das figuras brasileiras mais emblemáticas na luta pelos direitos humanos e por melhores condições a trabalhadores e pessoas pobres. Ele foi morto aos 37 anos, ao tomar um tiro pelas costas, disparado por um policial militar durante uma manifestação pacífica, na porta de uma fábrica localizada na Zona Sul da capital paulista.

A irmã Cecília Hansen, missionária serva do Espírito Santo, conheceu de perto o jovem sindicalista. Ela atua no Comitê Santo Dias, que mantém vivas as lutas defendidas pelo militante e a memória do operário. A religiosa conta que, além do engajamento sindical como metalúrgico, Santo Dias tinha uma intensa atuação cristã.

“Já em sua terra natal (Terra Roxa, interior de São Paulo), participou da Legião de Maria, Congregação Mariana e das lutas dos trabalhadores rurais”, relata. A irmã acrescenta que o sempre alegre Santo também foi ministro extraordinário da comunhão e frequentemente visitava os enfermos na periferia de São Paulo. “Em sua fé, sempre se mostrou inabalável, mesmo diante das grandes dificuldades. Seu compromisso com os trabalhadores vem de suas convicções da vivência do Evangelho na vida”, testemunha a missionária.

Ao lado da esposa, Ana Maria do Carmo, Santo Dias participou do Movimento Custo de Vida. Em plena ditadura militar, na década de 70, contestava o aumento dos gastos das famílias. Uma das iniciativas mais célebres foi um abaixo-assinado firmado por 1,3 milhão de pessoas, pedindo ao presidente da República a redução dos preços de produtos básicos. A apresentação do documento reuniu cerca de 20 mil pessoas na Praça da Sé, no Centro de São Paulo. Santo também participou ativamente da Pastoral Operária, surgida das reflexões das Comunidades Eclesiais de Base (CEB).

A morte de Santo Dias causou grande comoção à época, conta Ir. Cecília. O cortejo fúnebre reuniu uma multidão em frente à Catedral da Sé, transformando-se numa grande manifestação contra as forças que oprimiam o povo. Imediatamente após o assassinato do sindicalista, foi criado o Comitê Santo Dias.

A primeira ação do Comitê foi acompanhar de perto o julgamento do assassino. As sessões no Tribunal foram seguidas pela população. Irmã Cecília relata que, na primeira instância, o autor foi condenado, contudo, mesmo com a clareza de todas as evidências, o policial foi absolvido na segunda. “Criou uma descrença e desconfiança na Justiça. Mostrou que o poder está acima da Justiça. Fiquei indignada!”, lamenta Ir. Cecília.

Parques, praças, pontes, escolas e projetos sociais no Brasil e no exterior ganharam o nome do sindicalista católico. Desde 1998, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo concede o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, e a Arquidiocese de São Paulo criou o Centro Santo Dias de Direitos Humanos, que visa a defender a causa de pessoas de diversas comunidades.

Programação

Para lembrar os 40 anos do assassinato de Santo Dias, uma intensa programação foi organizada em várias partes do Brasil. Em São Paulo-SP, o Comitê promove a Semana Santo Dias 2019. Veja os principais eventos da programação:

30 de outubro (quarta-feira), 14h
Ato em frente à antiga fábrica Sylvania e celebração no Cemitério Campo Grande: Rua Quararibeia, altura do nº 200.

2 de novembro (sábado)
24ª Caminhada pela Vida e pela Paz – saída de pontos diferentes até o Cemitério São Luiz. Às 8h, encontro na Paróquia Santos Mártires: Rua Luís Baldinato, 9. Encontro no CDHEP (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular): Rua Dr. Luís da Fonseca Galvão, 180.

3 de novembro (domingo), 8h
Missa dos Mártires – Paróquia Santos Mártires: Rua Luís Baldinato, 9.

9 de novembro (sábado) ,10h
Roda de Conversa – EMEI Santo Dias da Silva: Praça Michel Mattar, s/nº.

23 de novembro (sábado), 10h
Lançamento da 2ª edição do livro “Santo Dias: quando o passado se transforma se em História” – Instituto Cultural de Trabalhadores/as da Zona Sul: Rua Antônio Foster, 100 – Vila Socorro.

Outras informações sobre a vida e o legado de Santo Dias, além do programa completo das homenagens em São Paulo estão disponíveis no endereço https://cmpmboicp.wixsite.com/santo-dias

Diácono Alessandro Faleiro Marques
Diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.