Natureza pedagoga: as águas de março

Posso dizer que somos água, que a natureza nos aproxima do sagrado. Posso dizer que água é direito humano, que o futuro é agora. Para entender a magnitude e o alcance dessas afirmações, destaco:

71% da superfície da terra são cobertos por água;
de toda água do planeta, apenas 2,5% são de água doce;
os recursos hídricos no Brasil representam 12% do total mundial;
o corpo humano apresenta entre 60 a 75% de água.

Brasil, 2020…

“São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração.”

Ao som de Tom Jobim, poderia intuir que o pior já passou e que o outono vai nos consolar, e que o que aconteceu passou… Mas, na imensidão das terras brasileiras, seguimos vivendo a contraditória realidade da falta da água e a emergência dos temporais. Para exemplificar, ao menos dez cidades em Minas Gerais foram afetadas, emergencial e alternadamente, pela seca e pelos temporais, duas faces de uma mesma calamidade.

Trazemos na lembrança as recentes e impactantes imagens veiculadas, e muitos trazem na pele a força da mensagem das águas, seja na escassez, seja no transbordamento. É a natureza pedagoga… Só esses fatos e imagens já serviriam para nos alertar sobre a relevância de se propor essa discussão, especialmente considerando o simbolismo de 22 de março que, desde 1992, foi decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o Dia Mundial da Água.
Talvez pelo acirramento da vida urbana, o cotidiano de rios tampados, nascentes submersas, hidrantes e água canalizada tenhamos “perdido” o entendimento do ciclo vital da água, do ciclo vital de todo o meio ambiente.

Não dá mais para negar o problema nem seguir resignados e acomodados, e muito menos acreditando que a solução é apenas técnica. A disputa pela água, a escassez crescente pelo mundo afora é uma realidade. Há de se cuidar da racionalidade em seu uso, de forma a permitir o desenvolvimento das nações, a justiça social e a manutenção dos ecossistemas. A proteção e a preservação para garantir a quantidade, a qualidade e os múltiplos usos dos recursos hídricos envolvem também gestão, política, financiamento, diálogo e parceria. Todos e todas, cada um e cada uma, com base em sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades, fazendo sua parte, conforme nos ensina o Papa Francisco.

“São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração”

Ao som de Tom Jobim, prefiro entender que, onde brota a promessa de vida e onde reina o amor, o cuidado com nossa Casa Comum vai prevalecer, e isso depende de todos nós, de cada um de nós!

Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

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Referências:

Papa Francisco. Carta Encíclica “Laudato Si’” sobre o cuidado da Casa Comum. Vaticano, 25 de maio de 2015.
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agua.htm
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/02/06/dez-cidades-mineiras-enfrentam-efeitos-da-seca-em-meio-a-chuva.htm
https://www.hypeness.com.br/2013/10/conheca-a-comunidade-na-turquia-que-se-comunica-atraves-do-assobio/
https://www.letras.mus.br/tom-jobim/49022/
https://www.mma.gov.br/estruturas/161/_publicacao/161_publicacao03032011025235.pdf