No tempo da delicadeza…

Um choro de quem respira a plenos pulmões pela primeira vez invade o ambiente e nos enche de fé, rendidos ao milagre da vida.

Começa assim uma jornada de nascimentos simultâneos.

Nasce uma criança,

Nascem mães,

Nascem pais,

Nascem tios e tias, avós e avôs,

Nascem sobrinhos…

Segue uma jornada neuronal de sinapses que vamos testemunhar a potência a cada dia, todo dia.

“Vamos precisar de todo mundo…”, já dizia o cantor. 

Esse choro inaugural também dá a largada do tempo das contradições!

E o que se pensava “idealisticamente” das formas de educar não cabe mais.

Experiências marcadas e marcantes de cada adulto que está por perto desse ser humano que já nasceu comunicando ganham oportunidade de serem “ressignificadas e experienciadas”.

Tempo de afeto, cuidado, fragilidade, potência, paciência, exaustão, êxtase, aprendizados, contatos sociais, vivências na natureza, encantamento, esgotamento, alegria, musicalidade e movimento.

A infância que hoje celebramos, ao som dessa criança que acabou de nascer, também traz consigo muitos riscos de desproteção, o que ameaça a vida e demanda a retaguarda de políticas públicas para a garantia de direitos, mas esse enfoque ficará para outra oportunidade.

Voltemos à aventura cotidiana de cuidar e educar, e às sinapses, essa relação íntima ente os neurônios no momento do aprendizado.

Poderia listar dez mandamentos da infância, mas vou me ater a apenas um…

Infância é tempo de semear delicadezas!

Lembrem-se disso ao organizarem a desafiadora rotina dos afazeres e prazeres da infância.

Delicadeza não desautoriza…

Delicadeza não a deixa “manhosa”,

Delicadeza cria crianças seguras e criativas.

Brincar é potência pura, 

Brincar desafia o pensamento, 

Brincar constrói conhecimentos!

Sejamos, então, delicados e respeitosos!

Tenhamos sempre em mente que cada criança é uma pessoa em condição peculiar de desenvolvimento.

A criança aprende com cada gesto dos adultos ao seu redor… seus cuidadores, educadores, familiares, vizinhos, amigos, etc.

Tudo o que é experimentado vira referência, modelo, repetição e acaba por validar valores e condutas.

Não há receitas e também não há mandamentos, mesmo porque seriam infinitos…

Vamos cantar, colecionar, corrigir com leveza, desenhar, interagir com a natureza, nadar, pular corda, ler, observar, orientar com calma, escutar, aguardar, acolher, dar colo, gargalhar, correr juntos…

O tempo de delicadeza da infância é exigente, demanda zelo permanente. 

É um eterno (re)começar.

Toda vez que, mesmo com todo o empenho, perdemos a calma e a paciência, nos afastamos da possibilidade de contribuir para criar seres de paz.

Onde mora a delicadeza, reina o amor.

Ao celebrar a infância, vamos seguir aprendendo e crescendo com elas.

Respire fundo… feito essa criança que acabou de nascer!

 

Maria José Brant (Deka)

Assistente social, jardineira nas horas vagas.

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