O chamado que nos faz retornar à nossa morada interior

“Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus…” (Mt 9,10)

 

Jesus realizou sua missão na itinerância, fugindo de lugares fechados e controlados; em seus deslocamentos, revelou-se aberto aos encontros surpreendentes que apareciam. Seu olhar contemplativo captava o melhor que estava escondido no interior de cada pessoa, não importava quem fosse.

Assim aconteceu com Mateus, sentado junto a uma banca, fazendo o trabalho mais odiado pelos judeus: cobrador de impostos. Todos viam nele o inimigo por excelência, pois além de ser um colaborador do Império Romano, aproveitava de sua função para explorar os mais fracos.

Jesus, no entanto, olhou para o interior desse homem e viu nele um futuro apóstolo; Ele era tão imprevisível em seus movimentos de aproximação, tão resolvido, tão direto que acabou provocando espanto naqueles que o rodeavam; de modo certeiro e sem preâmbulos dirigiu-se ao homem sentado e lhe disse: “Segue-me”. O outro, impactado pelo olhar e pelo chamado de Jesus, prontamente se levantou, deixou tudo para trás e o seguiu.

Quando alguém nos convida a segui-lo, normalmente quer nos levar a algum lugar que conhece, que nos quer mostrar, que pode ser interessante para nós… No entanto, Jesus revela-se mais imprevisível ainda e, na cena seguinte, nos encontramos com a surpresa de que Ele levou Mateus à sua própria casa, sentou-se à sua mesa com publicanos e pecadores, ou seja, os conhecidos de Mateus, pessoas com quem se relacionava. Mateus devia estar atônito, sem dizer palavras; com que palavras convidaria Jesus à sua mesa? Agora é Jesus que segue Mateus: vai à sua casa e participa de uma refeição.

Seguir Jesus significa aceitar ser seguido por Ele em seu próprio ambiente, seu espaço mais pessoal e cotidiano. A possibilidade de escutar esse “segue-me”, pessoal e intransferível, continua tendo ressonâncias em todos nós, transtornando nosso modo habitual de viver, deslocando-nos de nossas atrofias, colocando-nos em movimento, abrindo possibilidades de novos encontros…

“A vocação de São Mateus”, Caravaggio, 1599-1600 – Igreja São Luís dos Franceses, Roma.

Jesus continua se deslocando, nos busca, nos olha e nos diz: “Segue-me!”. Coloca-nos em marcha na direção que nos indica e, aos poucos, nos damos conta de que nos leva justamente para o centro de nós mesmos: a casa interior. Ali se realiza o verdadeiro encontro, porque é sua própria morada. Ali é o lugar da nossa verdadeira identidade, o celeiro de nossos dons e recursos, a sede de nossas decisões vitais, o ambiente de nossas inspirações, sentimentos elevados e desejos mais nobres. O verdadeiro seguimento tem raízes no coração, porque se trata de identificação com Alguém que desvela (tira o véu) nossa nobreza original.

Segundo o relato deste domingo, Jesus não só se dirigiu à casa de Mateus, mas sentou-se à mesa com ele, compartilhando uma refeição. Sabemos que a refeição não se reduz a uma ingestão de alimentos; é sobretudo ambiente privilegiado para reforçar amizade, reconstruir laços… espaço de intimidade e de acolhida.

É urgente, por isso, recuperar o lugar e o sentido da mesa. Da mesa autêntica, daquela onde há lugar para todos e a palavra flui livremente. Porque a tentação, talvez a maior do nosso tempo, é de só nos sentarmos em mesas à medida da nossa mesquinhez, onde os lugares estão contados e o assunto para a conversa está predefinido.

Bastou Jesus sentar-se à mesa para provocar inquietações nas autoridades religiosas. Robert Karris afirma que “Jesus foi morto por causa da forma como comia”. Foi porque decidiu sentar-se na mesma mesa com os pecadores e os rejeitados, os cobradores de impostos e as mulheres de má vida que as autoridades religiosas da época se empenharam em reduzi-lo ao silêncio.

Ao instaurar aquilo que os especialistas chamam “comunhão de mesa” com aqueles que estavam excluídos de todas as mesas, Jesus quebrou os esquemas de pureza e impureza que organizavam a sociedade religiosa daquele tempo. Sentou-se à mesa com quem não devia, partilhou o pão e fez circular a palavra com quem estava condenado às migalhas e ao silêncio, e isso lhe foi fatal. “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”

Nós, mais de 2000 anos depois, somos filhos e filhas da sociedade mais “sentada” e “acomodada” da história. São muitos aqueles que, todos os dias, passam longas horas à mesa: mesa do trabalho, da escola, do “fast food”, dos negócios escusos…, enfim, mesas da morte. Nunca se viveu tanto à mesa. E, contudo, com uma ironia quase cruel, essa exponencial multiplicação das mesas acaba desembocando nesta triste situação: sentamo-nos junto às mesas onde só há lugar para um. O lugar do encontro, da partilha, da conversa tornou-se ícone do indivíduo absorto no seu trabalho, separado do mundo e dos outros, com os olhos numa tela fria. A escrivaninha matou a mesa e nós nos acostumamos bem com essa ideia.

Pelo contrário, a mesa verdadeira é o móvel que tende a tornar-se perigoso, sobretudo para as nossas certezas. É ali que o encontro com o outro, com o diferente, pode “dinamitar” o castelo de ideias e preconceitos que construímos à nossa volta. Não dá para furtar-nos ao diálogo, ao genuíno trocar de olhares e de palavras, e isso é uma experiência radical de humanização. Sabemos de onde viemos quando nos sentamos àquela mesa, mas ignoramos ainda aonde iremos quando nos levantarmos dali.

O modo livre de Jesus agir desperta olhares julgadores por parte dos fariseus. Ele percebe a maldade em seus corações e afirma: “quero misericórdia e não sacrifício”.

A frase lapidar de Jesus, repetida e retomada de Oseias, é espantosa síntese de virada e de maturidade de quem o segue. Em Jesus, esse é o sentimento básico que nos move em direção aos impuros, aos pecadores, aos fora da lei, à multidão dos excluídos…

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a misericórdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.

A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteressada da doação. O misericordioso torna-se um ser realmente livre, e isso lhe proporciona profunda alegria interior. É a partir da misericórdia que ele é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que o odeiam, de bendizer os que amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem esperar recompensa… A misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional, mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.

Toda a essência do Evangelho está aqui, nesta insondável confiança na possibilidade de mudança de cada um de nós, quando nos deixamos que o chamado de Jesus desperte o “aprendiz de discípulo” que nos habita; quando esse “gen” se ativa em nós, o resto vem por acréscimo: troca de lugar e de senhor, mudança de valores, sensibilidade solidária, misericórdia acolhedora, horizonte de sentido aberto… Saímos de uma vida acomodada, autocentrada, e entramos no percurso itinerante de Jesus: vida oblativa, comprometida…

 

Texto bíblico: Mt 9,9-13

 

Na oração: deixe que o chamado de Jesus desperte o(a) aprendiz de discípulo(a) que você carrega em seu interior.

– Prepare a mesa para um momento de intimidade com Aquele que não olha o exterior de sua vida, e sim para o que é mais humano e divino, escondido nos recantos de sua casa interior.

– Como seguidores(as) de Jesus e impulsionados(as) pelo seu Espírito, nós não temos mais mesas fixas; somos chamados a sair de nossas “mesas” para participar de todas as mesas.

– Reacender o “chamado fundante” é permitir ser arrancado da mesa do imobilismo e da acomodação, para peregrinar, criativamente, por entre as desafiantes e surpreendentes mesas da vida.

 

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

 

 

Imagem principal: detalhe da obra “A vocação de São Mateus”, Caravaggio, 1599-1600 – Igreja São Luís dos Franceses, Roma.

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