
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14). Esse versículo nos coloca diante de uma afirmação central à nossa fé cristã, mas aqui faço a pergunta: quantas vezes escutamos essa afirmação e nos deixamos sair de nossa zona de conforto? Ao celebrarmos a Solenidade da Anunciação do Senhor, somos levados a contemplar o mistério da Encarnação, mas estamos dispostos a nos questionar, a mergulhar na transformação que esse anúncio nos propõe?
Talvez o ponto mais desafiador dessa reflexão seja sair daquilo que se repete para entrarmos na compreensão de fato. Escrevo isso porque a Anunciação do anjo Gabriel a Maria, mais do que um acontecimento que marca determinada época, pode ser reconhecida como uma chave de leitura sobre quem somos nós, sobre nossa presença atuante no mundo e sobre o Deus que acreditamos conhecer em meio a este mundo.
Por muito tempo, talvez por questões culturais ou religiosas, fomos acostumados e doutrinados a compreender a fé como um “chamado” para o afastamento, ou seja, um distanciamento necessário às coisas que são “do mundo”, daquilo que a sociedade considera “mundano”. Como se a espiritualidade cristã exigisse um distanciamento da vida que se vive diariamente, da vida concreta, que é real, que é imperfeita, levando-nos a sobreviver dentro de uma “bolha”.
A Solenidade deste dia 25 de março, porém, vem nos mostrar outro olhar para romper essa lógica. Quando reafirmamos que “O Verbo se fez carne”, estamos admitindo que Deus, em sua divindade, não rejeitou o mundo; pelo contrário, Ele fez a escolha por este mundo, não rejeitou a vida humana e, ainda, habitou o humano por inteiro.
Olhar para essa possibilidade de compreensão muda tudo, pois a Encarnação aqui revisitada não é uma ideia abstrata, muito menos um detalhe teológico. Estamos falando de posicionamento. Esse Deus em quem acreditamos não se mantém distante, apenas observando a humanidade lá do céu, Ele está presente no cotidiano das pessoas, nos lares, nos trabalhos, nos momentos de amizade, Ele faz parte da história das pessoas, Ele se encontra nas alegrias, nas dores, nos sorrisos, na individualidade de cada pessoa humana. Da mesma maneira, Ele também experimenta as realidades em nosso tempo, o nosso cansaço, as nossas perdas… Ele vive em nós. E viver, já sabemos, não é tarefa fácil. Quando encaramos a Anunciação apenas por aquele olhar ingênuo, totalmente angelical, por vezes utópico, corremos um sério risco de deixar de lado a profundidade de uma reflexão necessária: é nesse momento, nessa história sagrada, que encontramos a validação de nossa própria condição humana.
Se o próprio Deus se mostrou humano, por meio de seu filho Jesus, por que insistimos, muitas vezes, em negar nossa própria humanidade? Jesus foi aquela pessoa sem fingimentos, Ele atravessou sua época sem ser imune às crueldades, até a seu próprio martírio. Esse foi um dos grandes momentos em que Jesus assumiu a humanidade em toda a sua dimensão, pois viveu em sociedade, sem se esconder.
E nós? Será que estamos nos permitindo viver e sentir sem, muitas vezes, criar uma espiritualidade baseada no controle e na aparência? E é aí que a Anunciação nos leva para mais um ponto digno de observação: o problema não está no mundo em si, mas na maneira como nos relacionamos com ele. Eu não preciso evitar o mundo nem mesmo o que ele me oferece, o que preciso é ter a consciência de como estou passando por este mundo, tendo a responsabilidade e a humanidade em primeiro lugar. Viver com presença!
Viver com presença não significa viver um Deus que entra na história para performar, fazer parecer tudo perfeito, porque é assim que a sociedade desenha para nós, não é? A Encarnação surge para se inserir em realidades concretas, para nos fazer questionar: vivemos com autenticidade ou será que nossa preocupação maior é apenas corresponder às expectativas? Será que estamos, de fato, nos dando a chance de viver a nossa própria vida ou estamos tentando encaixá-la em uma bolha que nos afasta de quem realmente somos ou queremos ser?
A vida que vivemos não é aquele “filtro” que encontramos nos aplicativos dos celulares, que editam as fotos e vídeos, deixando tudo muito perfeito e agradável, da maneira que a sociedade “curta”. A vida não é como um roteiro finalizado nem uma receita de bolo com os ingredientes certos. É um pouco sobre isso que a Encarnação nos faz refletir, pois Deus entra na história da humanidade para viver junto, para reafirmar que é possível existir com sentido, ainda que seja em meio a tantas incertezas.
Celebrar a Solenidade da Anunciação do Senhor, um fato tão singelo e envolvente diante de Maria, leva-nos a um cenário onde tudo aconteceu em um passado muito distante, mas é o significado desse momento sublime que nos ajuda a compreender a vida no presente. Reconhecemos, por meio da experiência humana, o momento em que o “sim” de Maria se transformou no “sim” da humanidade, o “sim” de Maria consolidou Aquele que chegaria em nove meses, o “sim” de Maria nos deu a mais pura certeza de que Deus escolhe onde deseja estar, pois é no chão de nossa existência que o verdadeiro sentido se revela.
Janaína Gonçalves
Jornalista, membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
Imagem principal: Dmytro Varavin (Istock)

