Os desafios da área ambiental no pós-devastação

Abordar o tema biodiversidade em 2023 passa necessariamente por um olhar retrospectivo sobre o cenário de terra arrasada, resultante das políticas ambientais promovidas nos últimos anos. Entre 2017 e 2021, período emblemático para o agravamento da metabolização da natureza em favor da economia, fui estudante do curso de especialização “Conservação da Natureza e Educação Ambiental”. Sou oriunda do campo do Design, que, em sua dimensão mais mercadológica e industrial, participa da instrumentalização da relação de exploração da Terra. Após 30 anos de convivência com a área, mais do que as leituras ou das notícias que saltavam dos jornais, a desesperança de meus jovens colegas biólogos, educadores ambientais e engenheiros florestais foi o fator sensibilizador para o contínuo desmonte das políticas ambientais.

Se, em 2023, a refundação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e a criação do Ministério dos Povos Indígenas sinaliza uma mudança de rota do atual governo em relação às questões ambientais, há muito a ser reconstruído, e com urgência.

Em 17 de abril último, o podcast “O Assunto”, apresentado por Julia Duailibi abordou, em seu episódio 943, o tema “A reconstrução da área ambiental no pós-devastação”. Participaram do programa Daniela Chiaretti, repórter especial de meio ambiente para o jornal “Valor Econômico”, e o professor Ricardo Abramovay, autor dos livros “Por uma economia do conhecimento da natureza” e “Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”.

Daniela analisou as dificuldades enfrentadas pela ministra Marina Silva, como o combate do desmatamento da Amazônia, este entrelaçado com o crime organizado, que, entre outros mecanismos, estende-se desde o contrabando de madeira até o tráfico de pessoas e drogas. A repórter também destacou a importância da recomposição e da capacitação de equipes de fiscalização de órgãos como o Ibama para lidar com o crime organizado. Por fim, apontou progressões como o Fundo Amazônia e ações conduzidas para interromper o garimpo ilegal em Terra Indígena Yanomami. O valor do Fundo Amazônia, de acordo com a jornalista, está em atuar como freio para o desmatamento e articular ações de sustentabilidade para outros projetos

Abramovay abordou a riqueza potencial da Amazônia e destacou a importância de sua extração e uso sustentável. Seu olhar é sistêmico e considera a importância de uma “agenda pós-desmatamento” ou uma “agenda verde”. O professor destaca o Ministério Indígena como uma ação socioambiental, o Fundo Amazônia como um eixo estratégico de sustentabilidade econômica da floresta, a assistência técnica aos produtores rurais como tática mais adequada de aproveitamento dos produtos da floresta, e o investimento em fontes sustentáveis de geração de renda nos espaços urbanos como estratégia de contribuição para a preservação da floresta.

Tudo isso requer uma mudança de cultura. A educação para a preservação da biodiversidade assume importância fundamental para uma nova mentalidade e para considerar que a floresta se constitui em bônus e não em ônus. Isso passa por educar para a economia da sociobiodiversidade, da regeneração da floresta, do aproveitamento dos produtos oriundos da floresta e da valorização dos conhecimentos das populações quilombolas e indígenas.

Referência

O ASSUNTO #942. A reconstrução da área ambiental no pós-devastação. Disponível em https://open.spotify.com/episode/2NAWbpTsgYD1wUHhh4cpkp e https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2023/04/17/o-assunto-942-a-reconstrucao-da-area-ambiental-no-pos-devastacao.ghtml.

Marli Teresinha Everling
Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais; colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais (Instagram @designuniville).

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