Quaresma: tempo de reequilibrar-se

Na rica dinâmica litúrgica que a Igreja nos propõe, chegamos ao tempo da Quaresma. Recebemos do Mestre de Nazaré o convite de reequilibrarmos a relação com Deus, com os irmãos e irmãs, e com nós mesmos. Tempo de silêncio e escuta sensível de realidades que, por vezes, passam despercebidas.

A Quaresma nos desloca das fantasias de grandeza e nos conduz à verdade do seguimento. Mais do que posições ao lado de Cristo, precisamos de Cristo ao nosso lado. Podemos então, de forma clara, ouvir a pergunta que Deus nos faz e faz a Caim: “Onde está o teu irmão?” (Gênesis 4,9). Essa pergunta incomoda pelo simples fato de passarmos, às vezes, sem notar a presença de nossos irmãos e irmãs, especialmente os mais necessitados, os invisíveis, os empobrecidos, vítimas de um sistema excludente e exclusivista no uso de recursos e garantias de direitos, ou daqueles que vivem nas periferias existenciais, como bem nos exortou o saudoso Papa Francisco.

Em seu discurso a uma delegação francesa de jovens da Fraternité Missionnaire des Cités (Fraternidade Missionária das Cidades), Francisco afirma: “Vocês não precisam ir muito longe, em seu serviço no coração das cidades, para descobrir as periferias existenciais de nossas sociedades, que, na maioria das vezes, estão bem próximas, em seu bairro, na esquina de uma rua, no mesmo andar do prédio”.

No Brasil, no tempo quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) oferece uma excelente oportunidade de reflexão, conscientização e ação por meio da Campanha da Fraternidade, que se apresenta como um exercício quaresmal, em que contemplamos a exortação feita por Jesus no Evangelho de Mateus 25,40: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram”. Assumida pelas Igrejas Particulares da Igreja no Brasil, a Campanha da Fraternidade tornou-se expressão de comunhão, conversão e partilha. Comunhão na busca de construir uma verdadeira fraternidade; conversão na tentativa de deixar-se transformar pela vida fecundada pelo Evangelho; partilha como visibilização do Reino de Deus que recorda a ação da fé, o esforço do amor, a constância na esperança em Cristo Jesus (cf. 1 Tessalonicenses 1,3).

A Campanha da Fraternidade de 2026 traz como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). Inspirados pelo mistério da Encarnação, que revela a proximidade amorosa de Deus com a humanidade, voltamos nosso olhar para a realidade dramática da moradia no Brasil. Mas há de se acender um alerta em nossa reflexão: como está nosso olhar para os que têm moradia digna, mas não têm uma moradia interna em condições para deixar ressoar em seu coração o “Viva Deus Uno e Trino”? Dessa forma, a falta de um teto digno não é apenas uma carência material, pode ser também existencial, de um vazio profundo, agravando a exclusão social que nega a dignidade de filhos e filhas de Deus. Como afirmou São João Paulo II, a crise da habitação representa “uma das questões sociais mais graves da atualidade”, pois condensa deficiências econômicas, culturais e humanas profundas.

Diante desse desafio concreto, o tempo da Quaresma nos convida a aprofundarmos nossa espiritualidade vivida no cotidiano. Mas como isso se concretiza? O monge e autor Anselm Grün indica um caminho do que seja, de fato, uma vivência de espiritualidade no cotidiano, diz ele sobre espiritualidade: “A espiritualidade se expressa na forma como lidamos com as coisas terrenas, pois ali se manifesta também a forma como lidamos com Deus. Eu não posso dizer: ‘Eu oro e medito’ e, ao mesmo tempo, negligenciar o meu dia a dia. Minha espiritualidade se evidencia justamente na minha forma de viver meu dia a dia: se sou confiável, cuidadoso e atencioso com os objetos, com meu trabalho, com meus bens”.

Nossa espiritualidade trinitária e carisma missionário nos convidam a colocar os pés no chão da realidade, a olharmos para o mundo como lugar de bondade e ação gratuita de um Deus que é amor e não nos pede muito, pede-nos um coração generoso, aberto aos clamores dos que mais sofrem. Precisamos nos exercitar, neste tempo quaresmal, a encontrar Cristo caminhando ao nosso lado.

Trago para nossa reflexão a cena do Evangelho de Mateus (20,17-28). A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. Uma cena repleta de ternura maternal, mas que revela um desequilíbrio na percepção de Jesus e sua missão. Era, portanto, uma mulher de coragem. Mas o que estaria passando em seu coração ao ver o projeto de Jesus aparentemente desmoronar caminhando para a cruz? Estaria preparada para aquele surpreendente desfecho? Seria capaz de encontrar equilíbrio vital após o episódio da cruz?

Aqui reside a ironia que nos ilumina. A Quaresma é convite para caminharmos com Jesus rumo a Jerusalém, reequilibrar nossas expectativas em relação ao Cristo e sua ação entre nós. Nesta Quaresma, o que realmente precisamos não é ocupar lugares ao lado de Cristo na glória, mas ter Cristo a nosso lado, nos momentos de cruz. Não se trata de garantir posição na eternidade, mas de assegurar presença na rotina que frequentemente nos desafia como sociedade. Não se trata de honras futuras, mas de companhia nas horas cruciais e nas tomadas de decisão pessoais e comunitárias.

Portanto, nesta Quaresma, cabe a nós assumir o compromisso em sermos bons, para que, na bondade, encontremos a Deus. Finalizo com um texto do jesuíta Pedro Arrupe, em um retiro para sacerdotes em Cagliari (Itália), em 11 de março de 1976.

 

Sejam bons: bons em seu semblante, que deve ser relaxado, sereno e sorridente; bons em seu olhar, um olhar que primeiro surpreende e depois os atrai. Sejam bons na maneira como escutam; dessa forma, vocês experimentarão, repetidamente, paciência, amor, atenção e aceitação de qualquer chamado que lhes seja feito. Sejam bons em suas mãos: mãos que dão, que ajudam, que enxugam lágrimas, que apertam a mão dos pobres e doentes para lhes dar coragem, que acolhem seus adversários e os conduzem à reconciliação, que escrevem belas cartas para aqueles que sofrem, especialmente se sofrem por nossa causa; mãos que sabem pedir humildemente por vocês e pelos necessitados, que sabem servir aos doentes, que sabem realizar as tarefas mais humildes. Sejam bons em sua fala e em seu julgamento: sejam bons, se jovens, com os idosos; e, se idosos, sejam bons com os jovens. Sejam contemplativos em ação: olhando para Jesus, para serem Sua imagem, sejam, neste mundo e nesta Igreja, contemplativos em ação. Transformem sua atividade ministerial em um meio de união com Deus. Sejam santos: o santo encontra mil maneiras, até mesmo revolucionárias, de chegar a tempo onde a necessidade é urgente. O santo é ousado, engenhoso e moderno; o santo não espera que diretrizes e inovações venham do alto; o santo supera obstáculos e, se necessário, destrói estruturas antigas, ultrapassando-as. Mas sempre com o amor de Deus e em absoluta fidelidade à Igreja, à qual servimos humildemente porque a amamos apaixonadamente.

 

 

Para saber mais

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2026: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2026.

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. CNBB Campanhas: Campanha da Fraternidade. CNBB, Brasília, 2026. Disponível em: https://campanhas.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade/

 

GRÜN, Anselm. Caderno de espiritualidade: descubra o sagrado em você. Petrópolis: Vozes, 2021.

 

O PAPA: a fraternidade é o fermento de paz que as periferias precisam. Vatican News, Cidade do Vaticano, 4 jan. 2024. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2024-01/papa-francisco-jovens-franceses-fraternidade-missionaria-cidades.html

 

 

Lucas Fortunato Carneiro

Filósofo e teólogo, professor e coordenador missionário no Colégio Sagrado Coração de Jesus, Belo Horizonte-MG; membro da Equipe de Espiritualidade SSpS – Província Stella Matutina.

 

Imagem principal: Katsiaryna Yeudakimava (Istock).

 

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