Quem ensinou ao quero-quero…

 

Costumo caminhar num parque que há perto de casa. E lá existem muitos quero-queros. Cada dupla tem seu território, onde passa os dias e os anos. Ali se alimentam, se procriam. Observando seu dia a dia, notei algumas particularidades que me chamaram atenção. Entre elas como se alimentam. Vasculham o terreno em busca de insetos e “pesquisam” o terreno com suas patinhas. Notei que batem com elas sobre o chão e, atentos, parecem perceber quando, sob suas patas, há algum bichinho. Vejo que, ao fazer esse movimento, imediatamente penetram o local com seu bico e, de lá, extraem algum inseto ou verme que engolem rápido. 

Num espaço, que é seu território, permanecem a maior parte do tempo. Às vezes, fazem uns voos, talvez em busca de alimentos em outros lugares, mas retornam ao seu “habitat”. Se outros quero-queros ou aves maiores, como a cegonha, aproximam-se, são expulsos. Ali também, no início da primavera, fazem seus ninhos e chocam seus ovos até que nasçam seus filhotes; em geral são três. Seus ninhos são muito simples, poucos gravetos, no chão. De um ano para outro, quase no mesmo lugar, com pouca variação de distância. 

Durante o tempo em que chocam, se revezam no ninho. A fêmea fica ali por horas, depois vem o macho que a substitui, enquanto a fêmea procura alimentos para si. Enquanto um choca, o outro fica de sobreaviso para espantar intrusos. Ficam bem quietinhos, só fazem barulho quando percebem alguma ameaça. 

Quando os filhotes nascem, ficam próximos da mãe e aprendem a se alimentar por conta. Se aparece algum perigo, a mãe emite um som, e eles logo sabem que devem se esconder. Correm para algum lugar ou se abaixam, quase se confundindo com a vegetação, até que o perigo passe. Tão logo fiquem crescidos e autônomos, afastam-se do território dos pais e vão buscar o seu. E lá vão continuar a geração de novos quero-queros. 

Ao ver essa rotina dos quero-queros, veio-me a pergunta. Quem os ensinou a agir assim? Desde que existem quero-queros e em todos os lugares onde eles estão, eles procedem assim! Certamente que isso pertence à sua natureza e, instintivamente, passam de geração em geração esse modo de viver. Mas creio também, como são criaturas de Deus, já foram concebidos para assim viver e, obedientes à sua natureza, assim vivem seus anos, procriam-se, garantem novas gerações e se perpetuam como quero-queros.

Vejo que nós, humanos, temos algo a aprender deles. Por exemplo, o cuidado com os “filhotes”, guardando as sãs tradições herdadas dos antepassados, o cuidado sem abandono ou superproteção. Os quero-queros dão liberdade aos pequenos para aprenderem e desfrutarem-se da autonomia sadia. Quando crescem o suficiente, assumem a responsabilidade pela própria vida, buscam sua independência e dão continuidade à própria espécie. 

Em nossos tempos, os pais se sentem inseguros de seguir os “instintos paternos e maternos”, porque são muitos os desafios novos que aparecem em relação à criação dos filhos: quanto tempo dedicar a eles e que tipo de proteção dar, o que permitir e o que limitar? Muitos pais são desleixados, deixam seus filhos à mercê de suas vontades, não educam. Outras vezes, são superprotetores, não deixam seus filhos viverem a vida dentro daquilo que é próprio de sua fase, aprender com a experiência. 

A criança precisa de um espaço de liberdade para aprender a lidar com os desafios. Muitos pais enchem as “agendas” das crianças com tantas atividades que elas não têm tempo para brincar livremente. O brincar deixou de ser atividades das crianças, rouba-se delas um direito que lhes é natural e próprio para se desenvolverem de forma sadia, seguindo os impulsos da natureza.

Várias pesquisas apontam para uma grande virada que aconteceu a partir dos anos 2010-2012, a chamada “ressignificação da infância”, com a entrada dos smartphones e internet banda larga, às quais crianças e adolescentes tiveram acesso de forma prematura. Deixaram de brincar ao ar livre para brincar com o celular. Isso tem causado um crescimento espantoso dos casos de transtornos psicológicos, como ansiedade, depressão, bem como ideação suicida. Os pais superprotetores com “perigos de fora, se esquecem de vigiar os perigos de dentro”. 

Está comprovado que crianças, adolescentes, jovens que ficam várias horas por dia ligados a seus celulares (internet) se tornam ansiosos e não aprendem a lidar com os problemas do mundo real. Embora o progresso nas ciências traga inúmeros benefícios, se não houver o discernimento em relação às crianças, que estão em fase de desenvolvimento, corre-se o risco de prejudicar seu verdadeiro crescimento. 

Sabe-se que o cérebro, na adolescência, está desenvolvendo as conexões, formando suas redes neurais que vão estabelecer um “padrão” que será a maneira como reagirá diante dos estímulos que recebe. Crianças (adolescentes e jovens) expostos por várias horas ao celular sofrem quatro prejuízos que afetam sua saúde mental: 

 

  1. privação social: isto é, não desenvolvem vínculos de amizade duradouros com outras crianças; 
  2. privação do sono: não dormem as horas necessárias; 
  3. atenção fragmentada: dificuldade de concentração, distraem-se em demasia (conferem, a todo instante, mensagem ao celular); 
  4. vício: não conseguem viver sem o celular (o vício tem a ver com a formação de cadeias neurais que se desenvolvem pela repetição e se tornam padrão de resposta).

 

Como se vê, temos algo a aprender dos quero-queros. Os filhotes, depois de nascidos, logo saem de seus ninhos, começam a se alimentar sozinhos. Os pais (quero-queros) cuidam de sua prole, dando liberdade vigiada até que esta possa cuidar de si autonomamente. Nós, humanos, muitas vezes, perdemos as sãs tradições próprias da natureza humana. Hoje muitos filhos se perpetuam na casa dos pais, não sabem viver longe deles, criam seu ninho permanente na casa dos pais. 

Os quero-queros dividem as tarefas de “casa”, são solidários entre si. Um zela pelo bem do outro, se revezam nos cuidados. Seus dias são vividos numa rotina diária que consiste em buscar alimentos, e, quando satisfeitos, ficam parados, acocorados até esperar o dia seguinte. Não acumulam, confiam que, no dia seguinte, vão encontrar o alimento que precisam. Nós humanos temos a tendência de acumular, e a ganância nos empurra sempre para ter mais. Não sabemos gozar do descanso ou lazer. Temos um ditado que nos orienta: “Tempo é dinheiro, não posso perder”. E assim acontecem os estresses (burnout)…

Os quero-queros convivem em harmonia com a natureza, usam-na com sensatez, sem luxúria, não são escravos da moda. Seus ninhos são simples, não invejam o de outros pássaros mais bem construídos. Eles são eles! Conservam sua identidade! Vivem felizes do jeito que são. Nós, humanos, temos dificuldade de aceitar a vida como ela é; precisamos retocá-la com tatuagens ou outros penduricalhos. A competição nos leva a perder a originalidade, somos mais cópias xerox do que originais. 

Daí, creio, temos muito a aprender com os quero-queros. Quem ensinou o quero-quero viver desse jeito também nos criou e deixou sua marca em nós que nos torna originais e não cópias malfeitas dos caprichos humanos. É próprio da natureza humana ser criativa e desenvolver novas habilidades que deveriam melhorar a vida de todos, contudo vemos que ela é, com frequência, usada em benefício de uns poucos em detrimentos da maioria. Nesse sentido, somos “contranaturais”, pouco solidários.

Que os quero-queros continuem sendo inspiração para nossa vida, para vivê-la segundo a “natureza”! Que vivam os quero-queros e que saibamos aprender com eles!

 

Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS

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