— Oi, bom dia!
— Fale, querido! Lembro-me de você quando fui até sua casa, para conhecer sua família e um pouco da sua vida, antes de você começar a estudar aqui.
— O que você quer me falar?
— Quero trabalhar…
— Mas você tem apenas 11 anos e precisa focar nos estudos.
Seguiu-se um diálogo de muitas orientações e informações.
De novo, o aluno se apresenta diante da porta e fica parado.
— Fale, querido! Diga lá!
— Quero trabalhar…
— Venha cá, entre! A gente já conversou sobre isso mês passado. Guarde sua vontade e seus sonhos para quando chegar a hora, pois vai encontrar você mais preparado para encarar uma jornada de trabalho e estudos.
Ele voltou, seguidas vezes, com a mesma demanda… Até que nossa proximidade foi se consolidando, e ele ficou mais à vontade para continuar o diálogo.
— Teria algo mais que você está querendo me falar?
— Tem, sim. Eu queria trabalhar para minha mãe poder tirar meu pai de casa.
— Você acha que a sua mãe deseja que isso aconteça?
— Sim, todo mundo lá em casa.
Um silêncio me congela a consciência…
— Como pude não ter enxergado isso desde a primeira vez!?
A cada detalhe sórdido revelado, crescia em mim uma decepção profissional comigo mesma, na mesma proporção que se desenhava na minha mente uma trilha de passos cidadãos, diante da situação de violência doméstica e abuso sexual.
Uma rede de garantia de direitos foi acionada pela família, com apoio da escola. Num tempo recorde, a saída do pai, por força da lei, trouxe nova vida àquele lar.
Não foi fácil… Para ninguém.
Foi urgente e necessário.
A escola tem esse papel de “radar”, onde as questões sociais se revelam de maneira contundente e se manifestam na pele, no sorriso, na dentição, no autocuidado, no talento, na fome, na pressa, na proteção, no diálogo, na alegria, na tristeza, na dedicação, na agitação, nas brigas, no choro, na esperança e também no adoecimento de nossas crianças e adolescentes.
Havia ali um profissional do Serviço Social, uma assistente social desafiada pela realidade e que se apresentava para atuar na defesa e viabilização de direitos de populações vulneráveis, analisando e intervindo nas expressões da “questão social”.
No caso, uma criança concreta, com nome, filiação, desejos e endereço.
Um novo capítulo da história dessa família e de toda escola seguia sendo escrito.
Aquela assistente social nunca mais foi a mesma…
Aquela família nunca mais foi a mesma.
Que bom!
De passagem, deixo registrado que 15 de maio é dia dedicado ao assistente social, presente e atuante em tantos e tão diversos espaços, desenhando um “projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero” (cf. Princípios fundamentais – Código de Ética do Assistente Social).
Assistente social, jardineira nas horas vagas.

