Seguimento de Jesus Cristo

A vida religiosa consagrada (VRC) é definida e identificada com o seguimento radical de Jesus. O termo radical vem de raiz. É imprescindível manter viva e fortalecida a raiz vocacional, o seguimento de Jesus Cristo. Consideremos que “raízes não se constroem, raízes são cavadas”.[1] É necessário cavar para o aprofundamento e dar o devido cuidado à raiz. 

O discipulado radical de Jesus exige cuidado, cultivo e carinho. Cuidado: a raiz de uma planta é tudo. Cultivo: regar na medida certa, proporcionar claridade e calor suficientes, nutrientes para fortalecer a raiz. Carinho: olhar, contemplar com atenção e amor todos os dias a nossa vocação e sermos agradecidas, agradecidos. 

Somos missão,[2] portanto nossa vocação é nossa missão. É na vivência diária do seguimento de Jesus que nos tornamos vocação/missão, a qual deve ser cultivada na realidade, na escuta do clamor do povo e em sintonia com o Espírito Divino. Mas há pessoas que investem na autorreferência, em incensar o seu ego. Um dos desafios atuais da VRC é a escuta, a partilha de vida e missão.[3] Por vezes, se dá mais valor e atenção aos meios de comunicação social que à comunidade.[4] O individualismo avança e, em decorrência disso, a alegria da vocação tende a se enfraquecer e perder o sentido. 

E o tempo para escutar a Palavra de Deus? A voz das irmãs, dos irmãos, o clamor do povo nestes tempos difíceis e desafiantes, os gritos dos pobres e vulneráveis, onde encontram eco? Esse grito tem nome, sobrenome e rosto, chama-se fome, saúde, atenção, acolhida, etc. A Palavra de Deus nos ilumina: “Se alguém diz: eu amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão a quem vê. Quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1 João 4,20-21). O enraizamento em Jesus Cristo, igualmente, tem nome: amor às irmãs, aos irmãos, partilha, vida fraterna, serviço e diálogo. 

Alegres com nossa vocação

A alegria a que nos referimos é fruto do Espírito Santo (Gálatas 5,2), não realização pessoal. Para refletir sobre a alegria de nossa vocação, penso que é importante evidenciar três aspectos que nos situam como pessoas humanas: mistério, complexidade, ser em processo, inacabado. 

Mistério: Deus é mistério que escapa à nossa compreensão. Nós, pessoas, somos filhas, filhos de Deus Trindade no Filho Jesus. Participamos desse mistério. Estamos sempre nos desvelando, tirando o véu, revelando-nos a nós mesmos e aos outros. Jesus nos prometeu a vida em plenitude (João 10,10), abundância, mas essa plenitude será completa quando estivermos no paraíso, no céu. Somos seres inacabados, peregrinos e itinerantes nesta vida. 

Processo: estamos sempre em processo. Enquanto trilhamos os caminhos desta terra, peregrinamos nas trilhas deste Universo, nas surpresas e novidade cotidianas, somos seres inacabados. 

Complexidade: nós mesmas, mesmos, sentimos, constatamos que há complexidade em nosso ser. Não é simples lidar com pessoas. O cultivo da alegria, como fruto do Espírito Santo, constitui um dinamismo contínuo, buscado, com empenho, no dia a dia de nossa vocação-missão. A alegria passa pelas relações. Somos seres relacionais. A alegria profunda está vinculada ao autoconhecimento. Quanto mais nos adentramos no mistério que somos, deparam-nos com talentos, potencialidades, belezas e, por outro lado, feridas, sofrimentos, dores, sentimentos reprimidos. 

O Papa Francisco insiste: “Não deixem que lhe roubem a alegria”,[5] enfatiza: “A alegria cristã é o respiro do cristão; um cristão que não é alegre no coração não é um bom cristão. A alegria é o respiro, o modo de se expressar do cristão. A alegria cristã é paz. Quem faz a alegria no coração é o Espírito Santo”.[6]

Referências

[1] Marian Ambrosio. A missão de profetizar esperança. In: A religiosa consagrada no mundo (pós) pandêmico! Live do dia. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/eventos/78-noticias/608471-a-vida-religiosa-consagrada-no-mundo-pós-pandemico-a-missao-de-profetizar-esperanca

[2] “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (Papa Francisco). Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 273.

[3] A quarta prioridade para o triênio 2019 a 2022 da CRB Nacional é “promover relações humanizadoras”. 

[4] Nas comunidades, muitas pessoas gastam horas em diálogos on-line, enquanto, para a comunidade, não têm tempo.

[5] Ao chegar à Nunciatura Apostólica em Bogotá, Colômbia, o Papa Francisco encorajou os jovens: não deixem que lhes roubem a “alegria e a esperança”. Bogotá, 7 set. 2017. Disponível em: https://www.acidigital.com › notícias.

[6] Acidigital.com. Missa na Casa Santa Marta, 28 maio 2018.

Irmã Maria de Fátima Kapp

Missionária Serva do Espírito Santo (SSpS), teóloga, mestra em Teologia Bíblica e pós-graduada em Relação de Ajuda. Membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil.