Hoje eu amanheci com a nítida recordação de uma cena da infância de minha filha, no fim dos anos 1990.
Sempre que era necessário fazer uma pausa para acalmar, repor as energias e deixar a imaginação e a criatividade se renovarem, eu propunha uma brincadeira:
— Vamos brincar de ver você crescer.
A gente ficava ali, paradinhas, em silêncio, num tanto de tempo que parecia uma eternidade, e a mágica acontecia.
Ela sentia seu corpo crescer, e eu enxergava a expansão milimétrica diante de meus olhos.
Instantes de pura verdade, cercados de magia para a vida seguir firme e divertida.
Era sobre crer no que a gente não vê…
Sobre acolher e agradecer as bênçãos e o dom da vida.
Era um exercício de ensinar e aprender que o futuro é uma construção permanente, um vir a ser que acontece a cada escolha, a cada dia, a cada sono, a cada sonho, a cada arranhão, a cada “não”, a cada “sim”, a cada derrapada, a cada conquista, a cada lágrima, a cada gota de suor, a cada silêncio, a cada gargalhada, a cada toque, a cada corte, a cada comida, a cada gota d’água, a cada favo de mel…
A potência dessa cena e desse ritual ganha força e relevância, e sentido quando, feito adultos, cada um de nós, todos nós, ininterruptamente, estamos desenhando um futuro que também não para de ser construído.
Ainda que o próximo passo não seja nítido nem previsível, é preciso crer que o futuro já vem chegando, com a força dos sonhos, como dádiva, movido por nossa melhor energia, guiado pelas estradas, trilhas e atalhos que soubemos desbravar.
Viver é uma produção artesanal, cotidiana, feita à mão, descortinando o nevoeiro de possibilidades e incertezas, e nos desafiando ao exercício das escolhas essenciais.
O futuro é logo ali, ele sempre chega, e tomara que nos encontre potentes, ativos, criativos, disponíveis, barulhentos ou silenciosos, mas em plena primavera.
E para quem for primavera, “verão”!
Assistente social, analista de Políticas Públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social e mosaicista nas horas vagas.

