Solenidade da Assunção de Maria

“Olhou para a humilhação da sua Serva”
Lc 1,39-56

Pode-se dividir este texto em duas partes: a história da Visitação de Maria a Isabel e o “Canto de Maria” ou “Magnificat”. Reduzir o sentido da Visitação a um simples gesto serviçal da parte de Maria para com a sua parente idosa seria empobrecer muito o pensamento de Lucas. Essa cena é altamente simbólica. Lucas quer mostrar o acolhimento do “Novo” (representado por Maria e Jesus) por parte do “Antigo” (representado por Isabel e João). Isabel, símbolo de todos os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma frase aplicada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt 13,18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa que, animada pela fé no Senhor libertador, colabora na luta pelo mundo que Deus quer. Esse mundo, a chegada do Reino de Deus, já é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu ventre”. Nesse trecho, é importante destacar o motivo pelo qual Maria é bem-aventurada: “Feliz aquela que acreditou”. Para Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa do Senhor, não somente a promessa da gravidez, mas o projeto de Deus, desde Abraão, de dar a seu povo a terra, a descendência e a bênção. Enfim, a promessa da realização do projeto do Reino.

O Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição literária magistral, inspirada no Cântico da Ana (1Sm 2,1-10) e outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “pobres de Javé”, os deserdados desta terra que, apesar de tudo, acreditavam no projeto libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus olhou para a sua pequenez e humilhação (não “humildade”!). Ela celebra a mudança radical que o Reino traz: os poderosos, soberbos e ricaços serão derrubados, e os pobres, humilhados e famintos serão erguidos.

Esse retrato de Maria contrasta muito com a personalidade passiva e pálida que, muitas vezes, inventamos para ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres de nossas comunidades hoje. Diante das forças opressoras de seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo, o racismo), ela canta a experiência do Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos. Essa Maria nos desafia para que nos unamos na luta pela construção do Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores. Em nosso mundo, pelo menos tão opressor quanto naquela época, esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados conforme acreditarmos e nos empenharmos na construção de um mundo mais fraterno, justo e igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus, celebrado por Maria no canto do Magnificat e demonstrado na pessoa e missão de seu filho Jesus.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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