Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Dia Mundial da Paz

“Maria guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”
Lc 2,16-21

Embora, em Lucas, haja certa confusão sobre as referências cronológicas nas narrativas da infância de Jesus (Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se têm informações extrabíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto), a finalidade do autor é situar o nascimento do Salvador firmemente dentro da história humana, especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair de casa pelo poder opressor do Império, pois a finalidade de um recenseamento é alistar todos para a cobrança de impostos. Assim, o Messias nasce em condições sub-humanas e indignas; como nascem e se criam milhões de crianças, todos os anos, em nossa sociedade atual. Como não há lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio; no primeiro andar, existia a cozinha comunitária; e, no segundo, dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz em uma gruta ou estrebaria e deita Jesus em uma manjedoura.

Logo, Lucas introduz mais personagens tirados das fileiras dos excluídos da religião e sociedade de então: os pastores. No tempo de Jesus, são considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem, por isso não merecem confiança alguma nem podem testemunhar em juízo. É importante notar que, em Lucas, são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história: o nascimento e a ressurreição do Salvador. O Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluem (enquanto a maioria da classe abastada de nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje, os shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos).

Assim é tão bom escutar (e assimilar) as palavras do Papa Francisco sobre o sentido natalino. Facilmente, até nós, pessoas bem integradas nas Igrejas, assimilamos, como por osmose, a mentalidade consumista e materialista, e, muitas vezes, sem que notemos. Que contradição!
É importante refletir como Lucas nos apresenta a pessoa de Maria nesse texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37,11 e Dn 4,28, para descrever a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim, Lucas enfatiza que Maria não capta de imediato todo o sentido daquilo que ouve, mas medita as palavras, contemplando-as, para descobrir seu significado. Maria cresce na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos; torna-se peregrina na fé, modelo para todos nós, convidando-nos a nos mergulhar nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de hoje, também Dia Mundial da Paz, nos faz lembrar a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio: dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz”, há um cabedal de reflexão teológica vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica shalom, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus por meio de nosso esforço em criar um mundo de shalom, onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10,10). Como o conceito bíblico de shalom foge a nossos conceitos ocidentais, anexo novamente uma excelente reflexão sobre o termo, feita por Frei Ildo Perondi, OFMCap, de Londrina-PR (repetindo o que mandei ano passado). Shalom para todos, todas!

Shalom!

Quando eu estava em Roma, escrevendo a minha tese, devia fazer uma análise do termo hebraico “Shalom”. Não estava contente com as explicações dadas pelos dicionários, que, em geral, traduziam o termo por “Paz”. Por isso fui procurar um rabino hebreu, que muito carinhosamente me recebeu.

― Falar de Shalom é algo muito importante… – disse-me ele. Talvez seja um dos termos hebraicos mais carregados de sentido e força que temos em nossa língua. É certo que traduzir simplesmente por “Paz” empobrece muito o sentido da palavra original.

Enquanto ele falava, calmamente, pegou um copo e tomando uma jarra de água, foi colocando no copo muito devagar, deixando soar o borbulhar da água. O copo foi enchendo, e quando mais chegava perto da borda, ele ia cuidadosamente derramando ainda água…

― Veja bem, não cabe mais nada. Nem uma gota de água neste copo. Se eu colocar mais, vai derramar, vai transbordar. É quando tudo está completo, é a plenitude. Está me entendendo?

Balancei a cabeça em sentido negativo, olhando para o copo cheio, de tal modo que não coubesse mais nada.

― O Shalom é isso, irmão meu. É o máximo que pode caber. Quando eu desejo um Shalom a alguém, eu desejo todo o bem, tudo de bom, tanto bem que mais do que isso é impossível desejar. Sinal da quitação, quando não existe nada mais a pagar. Está entendendo?

― Sim, agora entendi o que é o Shalom!

― Não ainda, irmão meu. Para entender bem o sentido do Shalom, é preciso receber o Shalom; é preciso ter o Shalom… Posso ver em você perturbações, conflitos internos… Para você ter o Shalom, é preciso que você tenha a harmonia interna, que você equilibre dentro de você as forças, que se sinta bem, que você esteja em harmonia consigo mesmo, que esteja em paz…

― Agora entendi…

― Ainda não… Você não está sozinho neste mundo. Você convive com pessoas. As pessoas são importantes na nossa vida. E devemos estar em relação de harmonia com elas. Harmonizar-se com as pessoas que estão perto de nós; harmonizar-se com as pessoas que amamos e queremos bem; harmonizar-se com as pessoas que não gostamos e que às vezes nos fazem mesmo o mal; harmonizar-se com as pessoas que estão longe; harmonizar-se com as pessoas que necessitam de paz, de ajuda, que vivem em dificuldades, que são excluídas, que passam fome, dor, solidão… Quando nos harmonizamos com as pessoas, então, sim, temos o Shalom.

― Entendi…

― Mais um pouco… Não estamos sozinhos no mundo. Vivemos rodeados pelas criaturas de Deus. Você está sentindo a cadeira onde está sentado? Sente o chão onde firma os seus pés? Sente o ar que está respirando? Escute! Aposto que não está ouvindo a beleza do canto do passarinho, o cachorro que late, o grito da vida e da natureza, a suavidade do vento… Estar em harmonia com a Criação, com as criaturas, com a vida… Isso é também ter o Shalom.

― Agora estou entendendo…

― Tenha ainda um pouco de paciência. Irmão meu, você é uma criatura, não o Criador. Como um ser criado, você deve estar em harmonia constante com Deus. O Deus que o amou e que pensou em você no momento da Criação. Para ter o verdadeiro Shalom, você deve estar em sintonia e em plena harmonia com Deus, nosso Criador… Harmonize a sua vida com ele, deixe que Ele guie os seus passos. E então terá o Shalom.

― Acho que nunca vou entender o que é o Shalom…

― Não, agora você começou a entender o verdadeiro sentido dessa expressão hebraica. Nenhuma palavra das línguas modernas pode traduzir toda a força e o conteúdo do Shalom da nossa língua-mãe. Mas só quando conseguirmos harmonizar dentro de nós essas quatro dimensões é que poderemos dizer que temos o Shalom; só então é que poderemos desejar verdadeiramente um Shalom. Estar como um copo cheio onde não cabe mais nada; deixar o outro como um copo repleto.
E me abraçando, olhando-me nos olhos, então desejou-me um Shalom.

Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.