Somos seres de “travessias”

“Passemos para a outra margem” (Mc 4,35-41)

No relato evangélico deste domingo, Marcos prepara a cena desde o início; diz-nos que era “ao cair da tarde”. Logo descerão as trevas da noite sobre o lago de Genesaré. É Jesus quem toma a iniciativa daquela estranha travessia: “passemos para a outra margem”. A expressão tem forte sentido: Ele convida os discípulos a passarem juntos, na mesma barca, para outro mundo, para além do conhecido: a região da Decápole.

Na vida de Jesus de Nazaré, segundo o evangelho de Marcos, a “outra margem” é, sobretudo, território pagão e desconhecido. Está próxima, pode-se ver suas colinas a partir do lado de cá do lago. Mas as pessoas do outro lado estão distantes: distintas pela cultura e religião, pelas tradições e maneiras de viver. 

Para a comunidade pós-pascal, como para Jesus, “passar para a outra margem” implica todo um deslocamento para sair da “margem” rotineira e conhecida, ir ao encontro dos outros e descobrir ali os caminhos do Evangelho. Pois Jesus não se desloca à outra margem com a rota já estabelecida e com as respostas preparadas. Ele é o “homem da margem”, pois aprende com o diferente e se deixa transformar em sua visão de Deus e sobre o Reino, como no encontro com a mulher cananeia.

No fundo, “passar para a outra margem” é, para Jesus, um prolongamento do dinamismo da própria Encarnação, quando cruzou a fronteira, a mais radical, aquela que separa as margens aparentemente mais distintas: a do divino e do humano. A Encarnação é expressão de um Deus que sai de si e atravessa fronteiras, não por necessidade, mas por amor, porque lhe move um desejo irrefreável de relacionar-se, de ser-conosco, de “fazer morada” no interior do ser humano. 

Assim, a Encarnação revela-se como uma ousada “travessia” do Deus que se humaniza; identificados com o “Deus em contínua travessia”, também nós, na essência, somos “seres de travessias”. 

Por isso, o apelo “passemos para a outra margem!” indica duas coisas importantes. A primeira é que a expressão “passemos” está manifestando uma vontade de colocar-nos em movimento. Ou melhor, de começar a mover-nos. A segunda indica a direção da marcha: para onde é preciso ir? “À outra margem”. 

Isso significa que há duas margens, e que nós estamos numa, onde até agora nos encontrávamos tranquilos e seguros. É nosso “ninho”. Agora, no entanto, descobrimos uma inquietação interior que nos impulsiona a “sair”, a nos deslocar para o outro lado; não estamos a gosto aqui, do lado de cá. Esta inquietação nos diz, de alguma maneira, que, no nosso desejo, já atingimos a “outra margem”, embora não a tenhamos pisado ainda. Começamos a pressentir que ali há algo mais importante e desafiante, e que não temos do lado de cá; é necessário mobilizar-nos… e “sair”.

Para fazer a travessia, é preciso “remar mar adentro”. Porque adentrar-nos não é ter chegado. É algo inacabado e em processo. Fala do sentido do êxodo, de viver em trânsito e em um permanente movimento de busca que leva conosco certa incerteza: deixamos de ver o lugar do qual procedemos e ainda não vemos o lugar ao qual vamos chegar.

“Passar para a outra margem” tem muito de “adentrar-nos”, ou de submergir-nos, de empapar-nos, de molhar-nos, de deixar-nos levar mais para dentro do mar da vida das pessoas, para descobrir aí o novo, o diferente, os “traços” originais d’Aquele que já fez a travessia e nos espera do outro lado. 

Ao mesmo tempo, somos desafiados também a nos adentrar no mar dos desafios de nosso mundo, com seus dramas e carências, para ajudar a sanar suas feridas e estabelecer uma rede de solidariedade.

Somos convidados também a montar tendas leves nas encruzilhadas dos caminhos inexplorados e a descobrir a geografia dos “aforas” como uma fonte de revelação.

Assim, passar para a outra margem é acolher o que nos é oferecido com gratuidade. 

A imagem da “travessia” do lago de Genesaré é também reveladora de nossa “travessia” no mar interior. Como toda travessia, a da nossa interioridade também não é pacífica; os desafios e as dificuldades estão expressos nas imagens de vento forte, ondas impetuosas, barco instável. 

Nosso eu profundo – “a barca” -, mesmo atrevendo-se a sair de seu mundo habitual, experimenta um movimento forte das ondas ameaçadoras no qual teme afundar-se sem saída.

Mas não podemos evitar pensar e dar espaço dentro de nós ao fato tão simples e tantas vezes esquecido de que há “outra margem”, outra perspectiva, outro olhar…

Entendemos que se trata de uma experiência original, que mobiliza nossos melhores recursos e que ativa nossa criatividade. Nosso amadurecimento no seguimento de Jesus se dá através da “travessia” da margem do nosso “ego” (autocentrado, fechado aos outros…), à outra margem que é a de nossa identidade profunda. Por isso, a primeira margem é “fechada”, pois tem os mesmos limites que o ego, enquanto a segunda é ilimitada. Na margem antiga, controlamos tudo a partir da primazia do ego; na nova margem, entramos no fluxo da Vida mesma e que se expressa em tudo e que esvazia o ego de seu protagonismo anterior.

Nossa margem interior é mais libertadora, não tem tantos pré-juízos nem tantas feridas e complexos.

Que bonita é a outra margem quando nos aderimos à pessoa de Jesus, que serenamente descansa em nosso barco da vida! Ele, com sua presença, estabelece a calma só com sua palavra. Imediatamente, frente tal qualidade de presença, o mar se torna pacificado, e o medo angustiante se converte em confiança admirada e agradecida.

Cruzar nosso lago existencial com Ele é uma experiência-chave para partilhar o que somos e o que temos. Como “seres de travessias”, vamos criando um estilo de vida que vai dando sentido à nossa vida cristã envelhecida, normótica e sem inspiração. 

Para sairmos de nossa comodidade, temos de nos deixar comover pelo sofrimento das pessoas e pelos clamores que vêm da “outra margem”. E isso não é fácil numa sociedade que nos anestesia, nos atordoa e embota nossa sensibilidade.

Não se trata só de ir à outra margem, mas de “deixar-nos conduzir”, ou seja, não podemos nos deslocar a partir de nossos próprios planos, a partir de nossas próprias forças.

Como seguidores(as) d’Aquele que se “fez travessia”, somos chamados(as) a nos reinventar, a aventurar-nos por mares desconhecidos, a navegar para a “outra margem”, para uma terra nova…

Quem se sente fascinado pelo mar acaba por descobrir a maneira de construir barcos e de navegar.

Para isso é indispensável uma forte dose de ousadia… Não pode fugir nem trair. É preciso ousar para não perecer; é preciso aventurar-se e arriscar o primeiro passo; é preciso peregrinar infatigavelmente para dar origem a uma nova humanidade; é preciso ser nômade seduzido por novos horizontes.

“Tudo que valeu a pena inicialmente me aterrorizou” (Betty Bender)

Pergunte a um velejador quais os seus melhores momentos no mar, e ele lhe contará sobre um perigo que o colocou diante de seus limites.

O medo e o prazer caminham juntos. Eles se fundem no desafio. O mar da vida é o lugar do novo, do risco, da coragem e da ousadia. A vida consiste na constante aventura de ousar. 

Texto bíblico: Mc 4,35-41

Na oração: para viver em atitude de “travessia”, é preciso estar em eterna vigilância; e, ao mesmo tempo, abrir-se a um constante assombro e gratidão, porque cada manhã é um milagre.

Só vive a travessia quem está desperto, entre o realismo e a esperança.

– Que está acontecendo com os cristãos de hoje que, diante de tantos desafios, sentem medo de fazer a travessia e se escondem atrás de ritualismos vazios, devoções estéreis, práticas religiosas egoicas que não desembocam no compromisso com aqueles que “estão do outro lado, à margem”?

– Por que buscamos segurança no conhecido e no estabelecido no passado, e não escutamos o chamado de Jesus a “passar para a outra margem”, para prolongarmos seu modo de ser e viver, aberto ao novo e diferente?

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).